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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

O bem-amado, de Dias Gomes

Márcio Adriano Moraes

Em O bem-amado, peça teatral publicada em 1962, Dias Gomes transforma a construção de um cemitério em ponto de partida para uma crítica à política brasileira. Ambientada em Sucupira, pequena cidade do litoral baiano, a peça acompanha um governante cuja promessa eleitoral se converte em obsessão. Sob a comicidade das situações e dos diálogos, desenvolve-se uma reflexão inquietante sobre a transformação das necessidades coletivas em instrumentos de prestígio pessoal. O riso nasce do absurdo, mas revela práticas reconhecíveis de manipulação, autoritarismo e acomodação social.

O conflito começa com o transporte do cadáver do pescador Mestre Leonel, que precisa ser sepultado em outra cidade porque Sucupira não possui cemitério. Odorico Paraguaçu aproveita a dificuldade para promover sua candidatura à prefeitura, prometendo solucionar aquela humilhação. Eleito, constrói o campo-santo mediante o aproveitamento de verbas destinadas a outros serviços públicos. Entretanto, a ausência de mortes impede a inauguração e fortalece as críticas da oposição. Aquilo que deveria representar uma conquista administrativa passa a ameaçar sua permanência no poder.

A busca por um cadáver conduz Odorico a iniciativas progressivamente mais graves. Primeiro, incentiva a chegada de Ernesto, doente desenganado, esperando aproveitar seu falecimento. A recuperação do visitante frustra o projeto. Depois, acolhe o cangaceiro Zeca Diabo e o transforma em delegado, na expectativa de provocar mortes e eliminar o jornalista Neco Pedreira. Como Zeca pretende regenerar-se, o prefeito explora o ciúme de Dirceu Borboleta, inventando um envolvimento entre Neco e Dulcinéa, esposa do secretário e sua própria amante. O plano resulta no assassinato dela pelo marido.

Nem mesmo essa morte garante a inauguração, pois a família exige o sepultamento de Dulcinéa no mausoléu de Jaguatirica. Desmascarado e abandonado por aliados, Odorico tenta simular um atentado contra si para responsabilizar a oposição. Zeca, porém, sentindo-se traído pelo prefeito, mata-o de verdade. O governante acaba inaugurando o cemitério que construíra. O desfecho apresenta uma ironia rigorosamente preparada, encerrando uma trajetória na qual o desejo de controlar a morte termina por alcançar seu próprio idealizador.

Organizada em um ato único e nove quadros, a peça desenvolve uma ação predominantemente linear, com intervalos temporais que permitem acompanhar o desgaste da administração. A divisão em quadros favorece mudanças de ambiente e concentra os acontecimentos decisivos, alternando espaços públicos e privados. A praça, a venda, a prefeitura, a casa das Cajazeira e o cemitério compõem uma comunidade em que intimidade e política se atravessam continuamente. As rubricas orientam gestos, expressões, movimentos e efeitos sonoros, fornecendo elementos fundamentais para a construção cênica.

Quanto à linguagem, Odorico mistura solenidade, redundância, palavras inventadas e deformações vocabulares, produzindo uma retórica simultaneamente engraçada e reveladora. Seu discurso procura impressionar, revestindo decisões interesseiras de aparente grandeza pública. Em contraste, as falas dos pescadores e de outros moradores incorporam marcas da oralidade, referências populares e um humor ligado ao cotidiano. Essa diversidade caracteriza as personagens e evidencia diferentes posições sociais, sem afastar a peça de sua fluidez comunicativa.

Embora o enredo avance para assassinatos e rupturas, a comicidade permanece como instrumento crítico. A expectativa pela morte de Ernesto, a cobrança de produtividade ao coveiro sem defuntos e os intermináveis preparativos funerários expõem uma administração orientada pela inversão das prioridades. A população saudável torna-se um problema, enquanto a morte aparece como solução política. O cemitério deixa de ser um serviço disponível à comunidade e passa a exigir uma vítima que comprove sua utilidade. Nesse deslocamento, a peça revela o funcionamento perverso da propaganda governamental.

As personagens secundárias ampliam o alcance da sátira. Dorotéa combina liderança, moralismo e fidelidade pessoal ao prefeito; Juju (Judicéa) encontra no amor por Ernesto uma realização incompatível com a expectativa de sua morte; o Vigário concilia assistência religiosa e conveniência institucional. Neco enfrenta Odorico, mas também demonstra interesse comercial pelas notícias. Zeca, por sua vez, oscila entre o desejo de regeneração e um código de honra sustentado pela violência. Nenhuma dessas figuras permite reduzir a comunidade a uma oposição simples entre inocentes e corruptos.

Com relação à Dulcinéa, sua gravidez e seu relacionamento com Odorico tornam-se elementos de uma trama que explora a insegurança masculina e o julgamento da sexualidade feminina. Depois de assassinada, seu corpo continua submetido a interesses políticos e familiares. A violência contra a mulher surge, assim, vinculada à circulação de boatos, ao discurso da honra e à irresponsabilidade de quem estimula o crime para alcançar vantagens pessoais.

No funeral, Neco atribui ao morto virtudes desmentidas por suas ações, culminando no qualificativo que dá título à obra. A homenagem expõe a fabricação de reputações e a facilidade com que a cerimônia pública encobre a experiência coletiva. A força de O bem-amado reside nessa combinação de inventividade verbal, construção dramática e desconforto crítico. Ao transformar um administrador em caçador de defuntos, Dias Gomes oferece uma imagem memorável do poder que sacrifica a vida para preservar a própria aparência.

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 28/10/2026
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