por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 1904, Esaú e Jacó pertence à fase madura do escritor realista Machado de Assis. O romance acompanha Pedro e Paulo, gêmeos idênticos na aparência e rivais desde a infância, para examinar as relações entre desejo, ambição e política. Sua história atravessa os últimos anos do Império e os primeiros da República, mas os grandes acontecimentos chegam ao leitor sobretudo pelas conversas domésticas, pelos interesses das personagens e pelas dúvidas de quem tenta compreendê-los. A mudança de regime altera cargos e discursos; a disputa dos irmãos encontra sempre um modo de continuar.
A narrativa começa em 1871, quando Natividade consulta uma cabocla no morro do Castelo para conhecer o futuro dos filhos. Bárbara pergunta se eles brigaram no ventre materno e anuncia que serão grandes homens, sem esclarecer que espécie de grandeza terão. O pai, José dos Santos, busca outra interpretação para a rivalidade junto a um estudioso do espiritismo, Plácido. Desde as primeiras páginas, a profecia alimenta expectativas: os pais imaginam carreiras gloriosas, enquanto Natividade teme que o sucesso dos filhos não venha acompanhado de paz entre eles.
As diferenças dos gêmeos se tornam visíveis na adolescência. Pedro, mais cauteloso, defende a monarquia; Paulo, mais impetuoso, simpatiza com a república. Aquele escolhe o retrato de Luís XVI; e este, o de Robespierre. A briga que termina com as duas gravuras destruídas mostra como opiniões políticas servem também à competição pessoal. Mais tarde, Pedro estuda Medicina no Rio de Janeiro e Paulo cursa Direito em São Paulo. A distância separa seus caminhos profissionais, sem diminuir o desejo de cada um de prevalecer sobre o irmão.
O conflito se intensifica quando ambos se apaixonam por Flora, filha do político conservador Batista e de D. Cláudia. Reservada e afeita à música, a jovem se interessa pelos dois, mas não consegue escolher um deles. Em suas visões, Pedro e Paulo por vezes se alternam e por vezes se fundem numa única figura, capaz de reunir o que ela procura em cada irmão. Flora, porém, não vive apenas em função dessa disputa. Quando o rico Nóbrega lhe propõe casamento, ela o recusa claramente. Seu sofrimento nasce de um desejo que não encontra forma possível na relação com os gêmeos, e o romance resiste a explicá-lo por uma causa única.
Enquanto Flora tenta lidar com seus sentimentos, o país passa pela Proclamação da República. Paulo celebra a queda da monarquia; Pedro a condena. Batista procura adaptar suas ambições políticas às mudanças, e Santos teme as consequências da crise para os negócios. Flora se afasta dos irmãos e vai morar por algum tempo com D. Rita, irmã do conselheiro Aires, mas adoece e morre sem escolher entre eles. Pedro e Paulo juram reconciliar-se diante de sua sepultura. Logo, até a visita que cada um faz ao túmulo se transforma numa competição silenciosa.
Os irmãos iniciam suas carreiras e acabam eleitos deputados por grupos adversários. Nesse percurso, Pedro passa a aceitar a República, enquanto Paulo, ainda republicano, se opõe ao governo por considerá-lo aquém de seus ideais. A alteração das posições confirma uma percepção de Aires: Pedro tende a conservar o que existe; Paulo deseja avançar sempre mais. Antes de morrer, Natividade obtém dos filhos uma nova promessa de amizade. Eles a cumprem durante algum tempo, mas voltam a se detestar. Ao ouvir que mudaram, Aires responde que continuam os mesmos.
Essa conclusão é preparada pela estrutura do romance. Na “Advertência”, um editor fictício relata que, após a morte do conselheiro Aires, foram encontrados sete cadernos em sua escrivaninha. Ele seleciona o último para publicação e lhe dá o título Esaú e Jacó, expressão que o próprio Aires havia empregado. O manuscrito é atribuído ao conselheiro, embora a voz que conta a história fale dele na terceira pessoa, se dirija ao leitor, interrompa o enredo e comente o próprio ato de narrar. A presença do editor acrescenta outra camada a essa construção, pois a narrativa chega ao público por meio de sua seleção e apresentação. Reduzir a voz narrativa a Aires, sem considerar esse enquadramento, simplifica uma ambiguidade essencial da obra. Com capítulos curtos e frequentes digressões, Machado retarda acontecimentos que um romance amoroso convencional talvez apressasse e leva o leitor a acompanhar, além dos fatos, as tentativas nem sempre seguras de lhes atribuir sentido.
O tempo também ultrapassa a simples sucessão de datas históricas. A ação vai da gravidez de Natividade aos primeiros anos republicanos, mas recuos, lembranças e antecipações aproximam momentos distantes. A consulta à cabocla permanece na memória da mãe quando os filhos já ocupam cadeiras na Câmara; o desfecho, por sua vez, devolve o leitor à rivalidade anunciada no começo. No espaço, o Rio de Janeiro reúne lugares socialmente distintos: o morro do Castelo da consulta, as casas abastadas de Botafogo e da Rua de São Clemente, as ruas onde circulam rumores políticos e a Câmara dos Deputados. Petrópolis funciona como refúgio temporário, enquanto São Paulo participa da formação de Paulo e de suas convicções republicanas. A história nacional se deixa ver através desses percursos particulares.
A principal relação intertextual está no Gênesis bíblico. Como Esaú e Jacó, filhos de Rebeca, Pedro e Paulo são irmãos associados a uma luta anterior ao nascimento. A cabocla retoma o motivo bíblico ao perguntar pela briga no ventre, mas não oferece uma explicação equivalente à revelação de que dali sairiam “duas nações”. Machado desloca a narrativa sagrada para uma família brasileira do século XIX e modifica seu horizonte, já que os gêmeos do romance fazem pactos, porém não alcançam uma reconciliação duradoura. Seus nomes acrescentam outra referência bíblica, a dos apóstolos Pedro e Paulo, cuja divergência é lembrada pelas personagens. O livro ainda convoca a mitologia clássica, Dante e outras tradições, formando uma rede de comparações que amplia, sem encerrar, o significado da história.
No Realismo machadiano, essa rede de referências se combina à observação das contradições humanas. Natividade ama os filhos e deseja sua união, mas também sonha com o brilho político de ambos. Aires compreende muitas situações, embora sua diplomacia frequentemente o leve a evitar uma posição definitiva. Na cena da tabuleta da “Confeitaria do Império”, Custódio teme que o nome recém-pintado prejudique o negócio após a proclamação da República. A ironia nasce de uma preocupação concreta e alcança uma questão maior, quer seja, quanto muda uma sociedade quando troca os nomes e conserva seus interesses?
Esaú e Jacó não reduz Pedro e Paulo a representantes fixos de dois regimes. Ambos pertencem à mesma elite, ambicionam reconhecimento e disputam aquilo que julgam singularmente seu. A política oferece novas formas a uma rivalidade antiga; Flora e Natividade conseguem suspendê-la, mas não a resolvem. Ao terminar com os irmãos novamente separados, Machado recusa a promessa de harmonia que personagens e leitores procuraram ao longo da narrativa. Resta a pergunta que dá força crítica ao romance: por que duas figuras tão parecidas precisam afirmar sua diferença por meio de um conflito interminável?