por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 2000, Dois irmãos, de Milton Hatoum, acompanha a desagregação de uma família de origem libanesa em Manaus. A rivalidade entre os gêmeos Yaqub e Omar impulsiona o enredo, mas o romance ganha profundidade pela voz de Nael, filho da empregada indígena Domingas. Criado nos fundos da casa, ele conhece a intimidade de seus moradores sem receber os mesmos privilégios. Anos depois, procura reunir lembranças, conversas e episódios que presenciou para compreender a família e a própria origem.
A narrativa começa perto do fim dessa história. Zana está prestes a perder a casa onde viveu com Halim e os filhos; já doente, pergunta se os gêmeos fizeram as pazes. A partir desse quadro de perdas, Nael recua no tempo. Reconstitui o casamento dos avós, o nascimento dos filhos e a agressão de Omar que deixa uma cicatriz no rosto do irmão, motivada pelo ciúme diante da aproximação de Lívia com Yaqub. Separados depois desse episódio, os irmãos seguem caminhos distintos. Yaqub retorna à família anos mais tarde e constrói em São Paulo uma carreira de engenheiro e o casamento com Lívia. Omar permanece em Manaus, entregue às farras, a relações instáveis e à proteção insistente da mãe. A distância não enfraquece a disputa. Ressentimentos antigos alcançam a vida adulta, interferem nos negócios e contribuem para a venda do sobrado ao empresário Rochiram.
Os gêmeos parecem oferecer um contraste nítido. Yaqub estuda, trabalha, planeja e ascende socialmente; Omar age por impulso, depende da casa materna e reage com violência às frustrações. Hatoum aprofunda a oposição ao mostrar o que ambos compartilham. Nenhum consegue abandonar a rivalidade ou impedir que ela prejudique outras pessoas. Até o casamento de Yaqub com Lívia, cuja aproximação com ele estivera ligada à agressão na infância, reacende o conflito quando Omar descobre quem é a esposa do irmão. Nael não trata o êxito profissional de Yaqub como prova de superioridade moral, nem atribui somente a Omar a ruína familiar.
As relações de Omar com Dália e Pau-Mulato revelam que sua vida amorosa também é um campo de disputa com Zana. Dália, dançarina conhecida como Mulher Prateada, impressiona os convidados ao se apresentar em uma festa na casa da família. Omar demonstra publicamente sua paixão; Zana, sentindo-se ameaçada pela presença da jovem, a humilha e depois envia dinheiro às tias com quem ela vive. Dália deixa Manaus, sem que o narrador esclareça seu destino. Com Pau-Mulato, Omar chega a alterar os hábitos: abandona por um período as farras, aceita um emprego e mantém o relacionamento longe da casa. Zana manda vigiá-los e tenta interferir novamente. Mais tarde, os dois vivem juntos em um barco, mas tampouco constroem a vida estável que imaginavam. Os episódios mostram que Omar é capaz de envolvimento afetivo e de mudança, embora tenha dificuldade para sustentar uma escolha independente da mãe.
Zana ocupa posição decisiva nessa dinâmica. O cuidado excessivo com Omar, inicialmente associado à saúde frágil do filho, torna-se um favoritismo que Halim contesta e Yaqub sente como rejeição. Halim ama intensamente a esposa e se ressente da mudança que a paternidade produz na intimidade do casal. Embora tema o conflito entre os gêmeos, participa das decisões que moldam seus destinos. Rânia, a filha, demonstra competência extraordinária à frente da loja, mas sua independência comercial convive com laços familiares que limitam sua vida afetiva. Suas recusas aos pretendentes contrariam as expectativas de Zana, enquanto sua dedicação a Omar prolonga parte dos cuidados que a mãe lhe dispensava. Cada personagem tem desejos próprios; o conflito ultrapassa a disputa iniciada na infância dos irmãos.
A trajetória de Domingas revela uma desigualdade mais profunda. Retirada ainda criança de sua região de origem após a morte do pai, ela vive em um orfanato religioso antes de ser levada à casa de Zana. Ali encontra condições menos duras que as do internato, mas permanece responsável pelo trabalho doméstico e dependente dos patrões. Cuida das crianças, estabelece vínculos de afeto e cria Nael naquele espaço. Sua proximidade com a família não elimina a posição subordinada que ocupa, nem a protege da violência cometida por Omar. Ao dar lugar às lembranças e aos silêncios de Domingas, o romance impede que a história do sobrado seja contada apenas do ponto de vista de seus proprietários.
Nael é um narrador-personagem em primeira pessoa. Testemunha parte dos acontecimentos, torna-se confidente de Halim e escuta relatos de Domingas, mas não dispõe de uma visão completa do passado. Seu nome só aparece tardiamente; mesmo quando conhece a homenagem feita por Halim ao escolher “Nael”, continua sem saber com certeza qual dos gêmeos é seu pai. Essa lacuna participa da construção narrativa. O leitor recebe episódios em tempos diferentes, versões parciais e perguntas que permanecem abertas. Nael depende da memória dos outros inclusive para narrar fatos anteriores ao seu nascimento. Seu relato aproxima vozes sem fundi-las em uma explicação definitiva; recordar exige interpretar também as omissões.
O tempo do romance não segue uma linha contínua. A abertura antecipa a decadência de Zana, enquanto os capítulos retornam a décadas anteriores e avançam novamente até a venda da casa. O espaço também guarda camadas de tempo. Os quartos, o alpendre, o quintal e o cômodo dos fundos revelam hábitos, afetos e diferenças de posição entre os moradores. Quando o sobrado se transforma na Casa Rochiram, suas marcas materiais são cobertas; Nael permanece apenas em uma pequena área do terreno. A mudança da construção dá forma visível à dispersão familiar, embora o narrador ainda consiga reconhecer ali vestígios das vidas que passaram pela casa.
Manaus amplia o alcance dessa história. O porto, os rios, o mercado, a Cidade Flutuante e as ruas comerciais compõem uma cidade feita de encontros e desigualdades. No restaurante Biblos, aberto por Galib, pai de Zana, circulam trabalhadores, navegantes e imigrantes; o português se mistura ao árabe e a outras línguas. Comidas, poemas e lembranças do Líbano passam a fazer parte da vida amazônica. Hatoum revisita o regionalismo ao apresentar uma região ligada a migrações, comércio e transformações históricas, sem reduzir a Amazônia a uma paisagem exótica. O crescimento urbano produz oportunidades, mas também desloca moradores e desfaz espaços ligados ao rio.
A repressão política integra esse panorama. O professor e poeta Antenor Laval, importante para Nael e amigo de Omar, morre após ser levado por militares. Sua morte insere a violência da ditadura na experiência dos personagens e mostra que a história do país atravessa a vida aparentemente privada da família. Nael conserva seus escritos e a lembrança de suas aulas. A preservação dessas palavras se aproxima de seu próprio trabalho narrativo: escrever permite resistir ao desaparecimento de pessoas e experiências que o curso da cidade tende a encobrir.
Duas referências intertextuais iluminam a composição. A epígrafe de Carlos Drummond de Andrade associa a venda de uma casa à perda de móveis, lembranças e pesadelos, preparando o leitor para o destino do sobrado. Já a referência bíblica a Caim e Abel surge quando Zana pensa na hostilidade dos filhos. O paralelo acentua a gravidade da rivalidade fraterna, mas não oferece uma explicação pronta para os gêmeos: seus conflitos têm uma história particular, formada por escolhas, afetos desiguais e feridas acumuladas.
A prosa de Hatoum combina observação sensorial, diálogos e mudanças de tempo com a atenção de Nael às palavras alheias. O narrador escreve para recompor uma história que conheceu por dentro, embora nunca tenha ocupado plenamente o centro dela. Dois irmãos ganha força nessa distância entre viver e compreender. Ao final, a casa já tem outra fachada, os irmãos não se reconciliam e a dúvida sobre a paternidade persiste. Nael não recupera o que foi perdido; ao narrar, dá forma às vidas e às vozes que a transformação da casa ameaça encobrir.