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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

por Márcio Adriano Moraes

Em O som do rugido da onça, publicado em 2021, Micheliny Verunschk recupera um episódio pouco conhecido da história brasileira para interrogar os mecanismos pelos quais a colonização transforma violência em conhecimento, espoliação em descoberta e seres humanos em objetos de coleção. O romance parte da expedição realizada pelos alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre 1817 e 1820, mas recusa a perspectiva heroica que costuma celebrar os naturalistas europeus. Em primeiro plano aparecem Iñe-e, menina miranha posteriormente chamada Isabella, e Juri, batizado como Johann, duas crianças indígenas retiradas de suas terras e conduzidas à Baviera junto de plantas, animais, minerais e outros materiais recolhidos no Brasil.

 

A narrativa começa com a criação do mundo segundo uma cosmovisão miranha. Niimúe forma as coisas a partir do próprio corpo e entrega a criação aos animais primordiais, diante dos quais a humanidade deverá responder pelos rios envenenados, pelas florestas destruídas e pela terra convertida em ferida. Essa abertura desloca imediatamente o leitor do pensamento ocidental, que separa humanidade e natureza, para um universo em que animais, rios, plantas e espíritos possuem linguagem, memória e capacidade de ação. A onça, por exemplo, participa do mundo narrado como presença ancestral, narradora e agente de reparação.

 

Ainda pequena, Iñe-e desaparece na mata e é encontrada ao lado de Tipai uu, a Onça Grande. O avô interpreta o encontro como manifestação de um destino extraordinário, enquanto o pai passa a temer a proximidade entre a menina e o animal. Quando Martius chega ao território miranha, o tuxaua negocia indígenas capturados em conflitos e entrega também a própria filha. O romance, contudo, não sustenta somente essa versão, já que incorpora documentos nos quais o cientista procura apresentar as crianças como presentes, acompanhantes voluntárias ou pessoas libertadas de um cativeiro.

 

Iñe-e e Juri integram um grupo maior de crianças transportadas pelos expedicionários. Durante a viagem, morrem indígenas e animais, enquanto somente os dois chegam vivos à Europa. A travessia evidencia o abismo entre as perspectivas: para os cientistas, o navio conduz descobertas destinadas à ciência e ao engrandecimento europeu; para as crianças, cada distância percorrida aprofunda a ruptura com a família, a língua, os rios e os espíritos de sua terra.

 

Em Munique, os dois sobreviventes são tratados como curiosidades exóticas. Pessoas procuram vê-los na hospedaria, membros da corte examinam seus corpos e as princesas lidam com Iñe-e como se ela fosse uma boneca. Nas relações da expedição, as crianças aparecem contabilizadas ao lado de mamíferos, aves, insetos e plantas, num procedimento que revela a continuidade entre coleta científica e apropriação colonial. Depois da morte de uma das princesas, Iñe-e e Juri ficam sob a tutela dos naturalistas, interessados em preservá-los como exemplares vivos da viagem.

 

Juri adoece e morre de uma enfermidade associada ao clima europeu. Nem a morte interrompe sua objetificação, já que o seu corpo é submetido à necropsia, e a cabeça, separada, pesada e conservada em formol, convertendo-se em peça científica. Iñe-e morre pouco depois, vítima de uma infecção, embora os registros divirjam sobre sua idade, oscilando entre doze a quatorze anos, e as circunstâncias exatas do falecimento. As contradições documentais demonstram que a escrita europeia, tão minuciosa ao classificar plantas e animais, não preservou com o mesmo cuidado a história das crianças.

 

A segunda linha temporal acompanha Josefa, mulher brasileira do presente, criada pela avó paterna e por uma tia depois da morte da mãe e do afastamento do pai. Sua origem familiar guarda a memória de uma bisavó indígena “pega a laço”, expressão aparentemente pitoresca que encobre sequestro, violência sexual e apropriação. Abandonada pelo companheiro durante um aborto e envolvida posteriormente numa relação superficial com Tomás, Josefa reconhece na própria vida a persistência de antigas formas de controle sobre o corpo feminino.

 

Durante uma exposição em São Paulo, ela encontra as litografias de Miranha e Juri numa seção dedicada aos indígenas vistos como parte da fauna. Perturbada pela descoberta, pesquisa a história das crianças e viaja para Munique, refazendo voluntariamente, em sentido inverso, o percurso que elas realizaram sob coerção. A viagem não reconstitui tudo o que foi apagado, mas aproxima Josefa dos mortos e de sua própria ascendência. Diante da placa mortuária das crianças, ela percebe como até a homenagem europeia reorganiza seus corpos segundo convenções que suavizam a violência sofrida.

 

A construção do romance corresponde ao que Ângela Maria Dias denomina “bricolagem poética”. Verunschk reúne registros históricos, diários de viagem, notícias, litografias, relatos de morte, narrativas míticas, poemas e passagens inventadas. A obra não opõe simplesmente verdade ficcional e mentira documental; mostra que todo relato seleciona, organiza e interpreta acontecimentos. Quando Martius rasura, corrige ou substitui uma versão, o arquivo revela sua natureza interessada, já que quem domina a escrita pode decidir o que será preservado e aquilo que desaparecerá.

 

Essa problematização aproxima o livro das reflexões de Walter Benjamin sobre a necessidade de apreender a história pela perspectiva dos vencidos. Spix e Martius permanecem figuras relevantes para as ciências naturais, mas seu legado não pode ser separado dos corpos apropriados durante a expedição. O romance olha a história “pelo retrovisor”, como propõe Ângela Maria Dias, porque reconhece no presente a permanência das espoliações coloniais.

 

Maria Mirtis Caser e Mariana Marise Fernandes Leite observam que a narrativa se opõe à “história única” produzida pelos exploradores. Essa contestação não ocorre por meio da substituição de um documento por outro supostamente definitivo, mas pela multiplicação de vozes, versões e temporalidades. Isabella constitui apenas a identidade registrada pelos europeus; Iñe-e pertence a uma história que começa antes da captura e prossegue depois da morte física.

 

O perspectivismo ameríndio, estudado por Eduardo Viveiros de Castro, oferece uma chave importante para a relação entre humanidade, animalidade e metamorfose. Iñe-e recupera seu destino-onça, enquanto Juri reencontra um corpo-peixe que o conduz simbolicamente às águas e às mãos maternas. Essas transformações não funcionam como fuga decorativa para o fantástico, uma vez que afirmam outra maneira de compreender corpo, morte e identidade. Se o olhar europeu animaliza os indígenas para inferiorizá-los, a cosmovisão ameríndia rompe a hierarquia entre espécies e reconhece diferentes formas de subjetividade.

 

A prosa poética traduz esse universo mediante comparações retiradas da floresta, personificação de rios, vocábulos indígenas, repetições e imagens sensoriais. Há ecos de Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, sobretudo na aproximação entre voz indígena, linguagem e metamorfose em onça. Também aparecem intertextos de procedências diversas, como Goethe, Castro Alves e documentos oitocentistas, compondo uma escrita deliberadamente heterogênea.

 

Esse projeto envolve um desafio ético, quer seja, a autora precisa imaginar a interioridade de crianças cuja voz não foi registrada pelos documentos. O romance não resolve inteiramente o impasse de falar por sujeitos silenciados, mas explicita que a voz oferecida a Iñe-e é construída com uma língua que não lhe pertencia. Tal consciência impede que a ficção apresente sua reconstrução como verdade absoluta e transforma o gesto imaginativo em tentativa de escuta.

 

No desfecho, a menina-onça recupera o rugido e rompe as amarras que prendiam à cidade os fantasmas das crianças roubadas. Josefa escuta esse chamado, unindo presente e passado numa mesma experiência de reconhecimento. O rugido restitui aos silenciados uma presença que o arquivo colonial tentou reduzir a legenda, número e espécime. A força do romance nasce justamente daí: onde os documentos registraram duas peças trazidas do Brasil, a literatura devolve nomes, vínculos, medo, memória e voz.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 18/09/2026
Alterado em 19/09/2026
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