por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 1865, Iracema, de José de Alencar, é talvez o romance indianista mais famoso do Romantismo brasileiro. Subintitulada “Lenda do Ceará”, a obra retoma acontecimentos e personagens ligados à colonização do território cearense para transformá-los em narrativa amorosa, poema em prosa e mito fundador. O romance conta a união entre a indígena Iracema e o português Martim, da qual nasce Moacir, considerado o primeiro cearense. Sob a delicadeza das imagens e a idealização das personagens, porém, permanece uma história marcada por conquista territorial, alianças militares, abandono, assimilação cultural e sacrifício indígena.
O Romantismo brasileiro desenvolveu-se após a Independência política e assumiu a busca de uma identidade cultural própria. Na vertente indianista, o indígena foi escolhido como antepassado heroico da nação, ocupando simbolicamente o lugar que o cavaleiro medieval possuía em parte da literatura europeia. Essa representação não corresponde à diversidade histórica dos povos originários; é, pois, uma criação idealizada, formulada por escritores do século XIX segundo valores como honra, coragem, pureza, fidelidade e sacrifício. Iracema representa a terra americana; Martim, o colonizador; Moacir, a descendência mestiça; Poti, o indígena aliado e assimilado; Irapuã, a resistência à presença estrangeira.
Embora possua narrador, personagens, espaço, tempo e sequência de acontecimentos, a obra é construída por períodos ritmados, paralelismos, aliterações, personificações, metáforas e comparações. Os capítulos curtos aproximam-se de pequenas unidades poéticas, muitas vezes encerradas por imagens de partida, silêncio, resignação ou anoitecer.
Os cabelos da protagonista são comparados à asa da graúna e ao talhe da palmeira; o sorriso, ao mel da jati; o hálito, ao perfume da baunilha; a velocidade, aos movimentos dos animais da floresta. A natureza fornece as imagens pelas quais seu corpo, seus sentimentos e suas ações são compreendidos. Iracema pertence simbolicamente à mesma ordem da mata, das aves, dos rios e das plantas. Essa identificação prepara a alegoria da mulher-continente. Quando Iracema ama Martim, a terra americana entrega-se ao europeu; quando abandona a tribo, a cultura indígena perde seus vínculos; quando dá à luz Moacir, nasce a população mestiça; quando morre, a matriz indígena transforma-se em sepultura, lembrança e lenda. O corpo feminino converte-se em território simbólico sobre o qual se escreve a história da colonização.
O romance também apresenta uma “escrita tupinizada”. Alencar incorpora ao português numerosos vocábulos indígenas e procura recriar uma forma de pensar baseada em correspondências entre ser humano e natureza. Iracema refere-se a si mesma na terceira pessoa e expressa emoções por meio de elementos do ambiente. Essa linguagem não reproduz documentalmente a fala tabajara nem pode ser tomada como expressão direta de uma consciência indígena histórica. É uma invenção romântica, produzida por um escritor não indígena que pretendia conferir feição brasileira à língua literária.
O foco narrativo está concentrado em um narrador de terceira pessoa, onisciente e profundamente envolvido com o mundo representado. Ele conhece os sentimentos de Iracema, as hesitações de Martim, os pensamentos de Poti e os impulsos de Irapuã. A linguagem do narrador aproxima-se da forma imagética atribuída às personagens indígenas. Sentimentos são comparados a rios, aves, plantas e fenômenos naturais. Cria-se a impressão de que a história é contada do interior daquele mundo. Essa proximidade, contudo, convive com valores europeus e cristãos. No encerramento, o cristianismo é chamado de palavra do “Deus verdadeiro”, enquanto o território recebe a designação de “terra selvagem”. A obra procura assumir uma perspectiva indígena, mas não abandona a hierarquia cultural do colonizador.
O romance começa quando Martim já deixa o Ceará em uma embarcação, levando o filho e o cão Japi. O narrador menciona uma jovem mãe sepultada naquelas terras, mas ainda não explica sua identidade nem os acontecimentos que produziram a separação. Em seguida, a narrativa recua no tempo (flashback ou analepse) para apresentar Iracema na floresta e reconstruir sua história com Martim.
A narrativa principal acompanha cronologicamente o encontro, a paixão, a fuga, a guerra, a gravidez, o nascimento de Moacir e a morte de Iracema. No capítulo final, o enredo alcança novamente a partida apresentada na abertura e avança para o retorno de Martim, a fundação da comunidade cristã e o batismo de Poti. A estrutura circular faz com que o leitor conheça antecipadamente a consequência trágica da história, ainda que não saiba como ela ocorrerá.
O tempo histórico situa-se nos primeiros anos do século XVII, durante a ocupação portuguesa do Ceará. Entretanto, a temporalidade também possui dimensão lendária. A passagem do tempo é medida por sóis, luas, florações, estações e deslocamentos de animais.
O espaço principal é o Ceará, dividido entre as serras e matas dos tabajaras, o litoral dos pitiguaras e as praias onde Martim e Iracema constroem a cabana. Os campos tabajaras representam a família, a religião e o pertencimento original de Iracema; as terras pitiguaras lembram a derrota de seu povo; a cabana no litoral corresponde ao breve espaço conjugal; o mar desperta em Martim a memória de Portugal; o coqueiro transforma-se em sepultura e monumento afetivo.
Iracema, guerreira rápida e corajosa, ela também é filha de Araquém, guardiã da jurema, companheira de uma ará e virgem consagrada a Tupã. Ao escolher o estrangeiro, ela perde progressivamente a função sagrada, a convivência com o pai, a proximidade do irmão e o território de origem.
No início, ela fere Martim, protege-o contra Irapuã, planeja a fuga, conduz o estrangeiro até Poti, combate em defesa do esposo e decide acompanhá-lo. Contudo, sua capacidade de agir conduz a um percurso de renúncia. Depois de entregar-se ao português, passa a chamá-lo de senhor e a definir-se como sua escrava. O modelo romântico do amor absoluto exige que ela coloque o amado acima de si mesma e de sua comunidade.
Martim é construído como guerreiro honrado, cortês e cristão. Ao ser ferido por Iracema, contém o impulso de usar a espada; respeita a hospitalidade; evita derramar sangue na terra que o acolheu; demonstra coragem nos combates. Essa caracterização enobrece o colonizador português e reduz a percepção da violência estrutural ligada à sua presença. Martim pode sofrer, amar e sentir culpa, mas sobrevive e conserva o protagonismo histórico. Factualmente, Martim Soares Moreno foi um militar católico que defendeu os interesses da coroa lusitana no Brasil, objetivando fazer com que todos os países europeus reconhecessem o Tratado de Tordesilhas. É considerado o fundador do atual Ceará.
Poti representa o indígena aliado. Sua amizade com Martim é descrita como união de dois homens que possuem uma cabeça e um coração. Ele protege o português, combate a seu lado, participa da fundação colonial e recebe o batismo. No plano histórico, Poti é identificado por Alencar com Antônio Filipe Camarão, líder potiguara que serviu à Coroa portuguesa. No romance, a assimilação religiosa aparece como escolha afetiva, já que Poti deseja ter o mesmo Deus do amigo.
Moacir, “o nascido de meu sofrimento”, concentra as contradições do mito nacional. Filho de indígena e europeu, representa o primeiro cearense e a origem mestiça do povo brasileiro. Seu nascimento, porém, coincide com a derrota de grupos indígenas, a ausência do pai e a progressiva morte da mãe. Ele deixa o Ceará ainda no berço, tornando-se órfão e emigrante da própria pátria. A identidade mestiça nasce acompanhada pela dor, pelo exílio e pela perda da cultura materna.
Ao final, Iracema permanece como uma lenda atravessada pela beleza e pela perda. A terra que acolhe o encontro amoroso também recebe o corpo da mulher indígena, enterrado sob o coqueiro, enquanto Moacir parte nos braços do pai e leva consigo uma origem marcada pela ausência. Martim retorna; Poti ajoelha-se diante da cruz; a comunidade colonial cresce; Iracema, porém, subsiste no canto da jandaia, no murmúrio das águas e na saudade espalhada pela paisagem. “Tudo passa sobre a terra”, afirma o narrador, mas a própria narrativa resiste a essa passagem: transforma a mulher sacrificada em nome, memória e lenda. Entre o mel dos lábios e a amargura do destino, o romance sugere que o nascimento de uma nação também pode ser contado pelo silêncio daqueles que perderam a terra, os vínculos e a voz. Iracema morre, mas seu nome continua a ressoar sobre o Ceará, como se a natureza guardasse aquilo que a história tentou sepultar.