por Márcio Adriano Moraes
Publicado inicialmente na França, em 1982, com o título Journal de Bitita, e lançado no Brasil em 1986, Diário de Bitita reúne as memórias de infância e juventude de Carolina Maria de Jesus. Os manuscritos que deram origem à obra foram entregues pela escritora a jornalistas franceses pouco antes de sua morte, em 1977. Embora o título possa sugerir um diário convencional, o livro não apresenta registros datados nem acompanha os acontecimentos no momento em que ocorrem. Trata-se de uma narrativa memorialística, organizada em 22 capítulos, na qual a autora adulta reconstrói experiências vividas desde os primeiros anos em Sacramento, Minas Gerais, até sua partida para São Paulo.
Bitita, apelido de infância de Carolina, cresce em uma família negra e pobre nas primeiras décadas do século XX. Curiosa e questionadora, procura compreender as diferenças entre ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres. Suas perguntas frequentemente incomodam os adultos, pois atingem assuntos naturalizados pela sociedade: a violência policial, os privilégios dos fazendeiros, a exploração dos trabalhadores e o racismo ainda presente após a Abolição. A perspectiva infantil confere vivacidade à narrativa, mas não elimina a reflexão da autora madura, que interpreta o passado à luz da consciência adquirida ao longo da vida.
Quanto à relação familiar, Carolina admira especialmente o avô Benedito José da Silva, conhecido como “Sócrates africano” por sua sabedoria e capacidade de aconselhar as pessoas. Por meio das histórias contadas pelos familiares e pelos negros mais velhos, a menina conhece as experiências da escravidão e percebe que a liberdade legal não modificou inteiramente a condição da população negra. Sem acesso à terra, à educação prolongada ou ao trabalho digno, os descendentes de escravizados continuavam expostos à pobreza, à perseguição e à dependência dos proprietários rurais.
Apesar das ofensas racistas dos colegas e dos métodos autoritários de ensino, Bitita aprende a ler e descobre novas possibilidades de compreensão. Os livros dialogam com as histórias ouvidas no ambiente familiar e fortalecem sua capacidade de interpretar a realidade. Obras como A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, a poesia de Castro Alves, Os Lusíadas, de Camões, além da Bíblia e dos livros de História, integram seu percurso autodidata.
A pobreza, entretanto, interrompe sua escolarização e obriga a família a deslocar-se continuamente. Na juventude, a narradora trabalha em fazendas e casas de família, exercendo atividades como pajem, doméstica e cozinheira. Sua condição de mulher negra e pobre torna-a vulnerável a salários injustos, acusações infundadas, humilhações e demissões arbitrárias. Em diversos episódios, a aparente cordialidade dos patrões convive com atitudes paternalistas e preconceituosas. Mesmo aqueles que afirmam tratar bem seus empregados conservam a autoridade de decidir seus destinos e julgar toda a população negra a partir de estereótipos.
Carolina procura estabilidade, moradia e melhores salários, mas encontra trabalhos precários e relações marcadas pela desigualdade. A experiência pessoal permite que ela examine temas mais amplos, como coronelismo, concentração fundiária, migração, religiosidade, condições de trabalho, violência de gênero e transformações políticas. Ao comentar acontecimentos como a Revolução de 1930 e o governo de Getúlio Vargas, a narradora relaciona a história nacional aos efeitos concretos percebidos pela população pobre.
A linguagem de Diário de Bitita combina oralidade, construções próprias da fala, vocabulário adquirido nas leituras e imagens de grande força poética. Comparações e metáforas nascem da experiência cotidiana, como quando a narradora se sente semelhante a uma “moeda circulando”, obrigada a passar de uma casa para outra, ou se define como uma “moeda fraca, sem cotação”. Essas imagens traduzem a instabilidade de quem depende do trabalho para comer e não possui um lugar seguro no mundo. A estrutura episódica, composta por lembranças, cenas, comentários e reflexões, reproduz o movimento seletivo da memória.
O livro termina com a viagem para São Paulo, apresentada como esperança de uma vida melhor. A conclusão permanece aberta: a cidade ainda não realizou suas promessas, mas representa a possibilidade de mudança. Conhecendo a trajetória posterior de Carolina, o leitor percebe que a jovem migrante se tornaria a autora de Quarto de despejo, uma das escritoras brasileiras de maior repercussão internacional.
Diário de Bitita apresenta o Brasil pela perspectiva de quem experimentou suas desigualdades desde a infância. Ao transformar lembranças em literatura, Carolina Maria de Jesus questiona os discursos oficiais, preserva a memória da população negra e pobre e afirma o direito de interpretar a sociedade com sua própria voz. A obra constitui, assim, um relato de formação intelectual e uma vigorosa crítica às permanências do passado escravista na vida brasileira.