Publicação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Volume XXXIV. 1º Semestre de 2025. Márcio Adriano Moraes. Cadeira nº. 59. Patrono: João Valle Maurício.
Era bonito o espaço. Eu-menino via aquele lugar grande, não tão grande que me permitisse correr desvairado. Não me recordo de playground ou algum ambiente específico para criança. Eu me embrenhava, porém, entre as mesas, quando mãe permitia com aquele olhar de afirmação. Era só, contudo, mudar a expressão, um baixar de olhos e um aperto de lábios que já ouvia a admoestação na cabeça. Aí era ir direto para a cadeira e se sentar comportado.
A memória é um recorte. As mesas ficavam como no formato de “L” ou “U” no entorno das paredes ou algo assim. Amava ir ao Laranjeiras! Nunca soube de fato, ou não me recordo, se havia ou não laranjeiras no restaurante, sei que havia plantas frutíferas, mas qual fruto? Meu paladar não chegou a saborear. E, olha só, aquela ideia de que o restaurante se chamava Laranjeiras por causa de laranjas me foi surpreendida ao saber que Laranjeiras era o sobrenome da família proprietária.
De tudo, o sabor do peixe ensopado, da moqueca, ainda é sentido em meu paladar. Foi lá que comecei a gostar de peixe. Íamos sempre em família para aquele tradicional almoço de fim de semana. Fomos algumas vezes no jantar e em outros dias. Era só o desejo de peixe bater que buscávamos o Laranjeiras. Com certeza devia ter um cardápio variado, mas era sacramentado o lugar da moqueca de surubim.
Parecia ser tão distante aquele bairro do Melo o qual não era como hoje bem urbanizado. Aquela rua Tupinambá adentrava para o bairro ainda de lotes vagos, virando ali na esquina da Papaula se estendendo até a altura do número 493. Ficava numa esquina, e ali eu experimentei o sabor do surubim. A lembrança que me vem agora era de uma refeição de partes, ou seja, de entrada, prato secundário, principal e sobremesa. Antes da moqueca, que sempre era o prato mais esperado, chegava a salada numa bandeja grande com muitas verduras e legumes. Ah, eu gostava era da azeitona e do palmito, um casal que até hoje me parece perfeito para tira-gosto. Eu achava aquilo um luxo, comer a salada antes do prato principal. Nos outros restaurantes, era diferente a salada vinha junto com a comida. Havia momentos que, antes da moqueca, chegava um outro peixe, geralmente frito ou empanado. Eu comia um pouco apenas, porque ansiava mesmo à moqueca.
Então, ela chegava! Vinha em uma panela de barro com aquele caldo borbulhando. Eu achava aquilo lindo e dizia, naquele tom de criança, “essa sim acabou de sair do fogo!” E minha mãe gentilmente me servia com a advertência: “cuidado com o espinho, hein!” Era espinho mesmo naquele tom brejeiro de dizer.
Sem dúvida, havia outras peixarias em Montes Claros como a do Tony que ficava, à época, na Av. João XXIII, a do Hélio na Vila Brasília. Apesar de conhecer estas e outras, Laranjeiras traz a minha memória muito mais que o sabor do surubim ou da traíra. É uma lembrança de cá dentro, de um momento singular em família. Uma imagem que fica na lembrança, que não se sabe ao certo porquê, mas que fica e que traz uma saudade borbulhante, como aquela moqueca.