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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

Sobrevivendo ao racismo, de Luana Tolentino

por Márcio Adriano Moraes

Publicado em 2023, Sobrevivendo ao racismo, de Luana Tolentino, reúne cartas, crônicas, textos memorialísticos, perfis e artigos de opinião que, embora escritos em diferentes momentos, formam uma obra de unidade temática. Em todos eles, a autora examina os efeitos do racismo sobre a população negra, especialmente na escola, no trabalho, no acesso à universidade, na representação cultural, na liberdade religiosa e no próprio direito à vida. Com isso, o livro demonstra como a violência racial atravessa instituições, condiciona oportunidades e interfere na formação da identidade e da autoestima.

 

O gerúndio do título “sobrevivendo” sugere um processo contínuo, ainda não concluído, já que o racismo não pertence somente ao passado escravocrata nem se limita a atitudes individuais. Ele permanece ativo em situações cotidianas, como uma criança insultada pelos colegas, uma professora negra confundida com faxineira, um intelectual tratado como suspeito de furto ou uma pessoa agredida por professar uma religião de matriz africana. Sobreviver significa, nesse contexto, preservar a dignidade, reconstruir a autoestima e encontrar forças para enfrentar uma estrutura social que insiste em restringir a humanidade das pessoas negras.

 

A escrita memorialística é central na obra, como em “Carta para Ulisses”, no qual Luana recupera uma das experiências mais dolorosas de sua infância. Durante uma festa junina escolar, ela e Ulisses, duas crianças negras, foram obrigados a dançar juntos depois de não serem escolhidos pelos demais colegas. A decisão da professora desencadeou risos, gestos e insultos racistas. Ao rememorar o episódio, a narradora adulta recupera as reações físicas da menina humilhada: as pernas bambas, as mãos geladas, a garganta seca e a vontade de não voltar à escola. O passado não aparece como acontecimento encerrado, mas como experiência que continuou atuando sobre sua subjetividade.

 

Em “Como o racismo afeta o desenvolvimento das crianças negras”, outra lembrança pessoal torna-se ponto de partida para uma reflexão coletiva. No primeiro dia em uma nova escola, um garoto desconhecido gritou “Macaca!” ao vê-la. A autora relaciona essa experiência a estudos sobre os danos provocados pela discriminação racial à aprendizagem, ao comportamento e à saúde física e mental das crianças. Esse movimento do particular para o coletivo é uma das principais características do livro. Luana, dessa forma, torna-se uma metonímia social, pois fala de si, mas demonstra que sua história representa uma violência compartilhada por milhões de pessoas negras.

 

A escola assume, assim, uma posição ambivalente. É o espaço em que a autora sofre algumas de suas primeiras experiências de exclusão, mas também o lugar escolhido por ela para atuar como professora e agente de transformação. Em “Por uma educação antirracista, professoras negras se unem em coletivos” e “Escolas privadas precisam firmar compromisso com uma educação antirracista”, Luana critica o silêncio de educadores e instituições. Para ela, o enfrentamento ao racismo não pode ficar restrito a atividades comemorativas realizadas em novembro (20 de novembro é o dia da Consciência Negra), deve integrar o currículo, a formação docente e as práticas cotidianas. Em “Carta para Paulo Freire”, a educação é reafirmada como prática de liberdade e possibilidade de leitura crítica do mundo.

 

Outro eixo fundamental da coletânea é a condição da mulher negra. Em “Você faz faxina? Não, faço mestrado. Sou professora!”, uma pergunta aparentemente corriqueira revela a permanência de estereótipos que associam mulheres negras ao trabalho doméstico e recusam reconhecê-las como intelectuais. A crítica não desvaloriza o trabalho das faxineiras, mas denuncia uma sociedade incapaz de imaginar mulheres negras ocupando outros espaços profissionais. Mesmo depois da ascensão acadêmica, o corpo negro continua sendo interpretado a partir de expectativas construídas historicamente.

 

Essa reflexão reaparece em textos como “Jojo Todynho tem razão: a mulher preta não tem paz”, “Oprah e Viola: uma entrevista de milhões” e “Carta para Francia Márquez”. Neles, através de uma busca de correspondência com personalidades femininas pretas, a autora aborda a combinação entre racismo e sexismo, a vigilância sobre os corpos das mulheres, a solidão e a sobrecarga emocional; ao mesmo tempo em que ressalta a importância da representatividade. Ver mulheres negras ocupando espaços de poder permite que outras se reconheçam como sujeitos de possibilidades historicamente negadas. Em “Passei no doutorado: tenho o compromisso de abrir portas para mais gente como eu”, a conquista acadêmica deixa de ser entendida como sucesso exclusivamente individual e assume uma responsabilidade plural.

 

Os textos sobre violência racial constituem a parte mais dolorosa da obra. “O assassinato de Emily e Rebecca sob a óptica dos Racionais MC’s”, “Quando um negro morre de ‘bala perdida’, parte de uma mãe negra morre também”, “Moïse, a dor e o luto que nunca cessam” e “Carta para Marielle Franco” revelam uma sociedade em que a morte de pessoas negras é frequentemente naturalizada. Luana procura devolver nomes, histórias, vínculos familiares e projetos às vítimas que as notícias tendem a reduzir a estatísticas. O luto deixa de ser somente privado e adquire dimensão política: recordar os mortos significa resistir ao apagamento e exigir justiça.

 

A valorização da memória e da cultura negra orienta ainda os textos dedicados a Dona Ivone Lara (1921-2018), aclamada como a grande dama do samba e pioneira na luta antimanicomial; e Nelson Sargento (1924-2021), um dos maiores baluartes da escola de Samba da Mangueira. A autora combina homenagem, perfil biográfico e reflexão cultural, apresentando o samba como espaço de preservação da ancestralidade e de elaboração da experiência negra brasileira. Já em “O Brasil que celebra Exu no Carnaval também agride estudante umbandista”, denuncia a contradição de uma sociedade que celebra elementos das culturas afro-brasileiras, mas persegue seus praticantes. A aceitação estética não corresponde, necessariamente, ao respeito religioso.

 

Formalmente, Sobrevivendo ao racismo distingue-se pelo hibridismo. As cartas constroem intimidade com os destinatários; as crônicas partem de situações cotidianas para revelar conflitos sociais; os artigos mesclam posicionamento crítico, dados e referências históricas; e os perfis inserem trajetórias individuais na memória coletiva. Apesar dessa variedade, predomina uma linguagem direta, acessível e didática, profundamente marcada pela atuação docente da autora.

 

A força da obra decorre da articulação entre experiência, conhecimento e compromisso ético. Luana Tolentino escreve a partir das marcas deixadas pelo racismo, mas não transforma a dor em imobilidade. A memória torna-se denúncia; a denúncia produz consciência; e a consciência converte-se em ação. Ao final, compreendemos que sobreviver também significa ensinar, escrever, recordar, ocupar espaços e abrir caminhos para que as próximas gerações não enfrentem em silêncio as mesmas violências.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 16/07/2026
Alterado em 02/08/2026
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