por Márcio Adriano Moraes
Publicada originalmente no periódico Vida Urbana, em 27 de janeiro de 1915, a crônica “Não as matem”, de Lima Barreto, está inserida no período do Pré-modernismo brasileiro. Escrita numa época em que ainda não existiam conceitos como “feminicídio” ou políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, a crônica revela a capacidade do autor de identificar mecanismos estruturais de dominação masculina que permanecem, em grande medida, presentes na sociedade contemporânea.
O ponto de partida do texto é um caso real ocorrido no bairro de Deodoro, no Rio de Janeiro, em que um homem tenta assassinar a ex-noiva e, em seguida, suicida-se. Em vez de tratar o episódio como um fato isolado, o cronista o interpreta como “um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher”. A palavra “sintoma” é fundamental para compreender sua perspectiva: não interessa apenas o crime individual, mas aquilo que ele revela sobre uma mentalidade coletiva. A violência é apresentada como consequência direta de uma concepção de posse, segundo a qual a mulher deixa de ser vista como sujeito autônomo para ser tratada como propriedade masculina.
Ao longo da argumentação, Lima Barreto amplia o alcance da denúncia por meio da enumeração de outros casos semelhantes. A repetição de assassinatos cometidos contra mulheres demonstra que não se trata de exceções, mas de uma prática recorrente. Essa estratégia argumentativa fortalece a credibilidade do texto, pois evidencia que o cronista não constrói sua crítica sobre hipóteses abstratas, e sim sobre fatos concretos observados na vida urbana carioca.
Em vez de apresentar os agressores como vítimas do amor ou da emoção, Barreto os caracteriza como indivíduos incapazes de aceitar a liberdade alheia. A afirmação de que “todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros” sintetiza o núcleo moral de sua crítica. Para o escritor, o verdadeiro problema não reside no fim do relacionamento, mas na recusa masculina em reconhecer que a mulher possui o direito de decidir sobre seus próprios sentimentos.
Num processo analógico, Lima Barreto afirma que os ladrões roubam apenas o dinheiro, enquanto os “noivos assassinos” pretendem tomar aquilo que existe de mais sagrado em outra pessoa: sua liberdade, sua autonomia e sua própria vida. O recurso comparativo produz um efeito de choque, pois subverte expectativas morais, já que o criminoso comum aparece menos destrutivo do que aquele que mata em nome do amor.
Barreto argumenta que os sentimentos humanos são naturalmente mutáveis, sujeitos às circunstâncias e às experiências da vida. Exigir que uma mulher permaneça amando alguém para sempre seria ignorar a própria natureza das relações humanas. O autor utiliza uma analogia particularmente feliz ao afirmar que exigir a permanência do amor “é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento”. A comparação aproxima um fenômeno emocional de uma lei natural, enfatizando que tanto os sentimentos quanto os ciclos da natureza obedecem a movimentos inevitáveis.
Embora a crônica possua forte carga emocional, sua construção permanece rigorosamente racional. Lima Barreto evita insultos gratuitos ou apelos melodramáticos. Sua indignação é sustentada por argumentos lógicos, comparações, exemplos concretos e reflexões de natureza ética.
Também merece destaque a simplicidade da linguagem. Distante do preciosismo característico de parte da produção literária de seu tempo, a exemplo dos parnasianos; Barreto opta por um estilo direto, acessível e coloquial. Essa escolha é característica de sua escrita predominantemente alinhada a preocupações sociais que marcam grande parte de sua obra.
Mais de um século após sua publicação, a violência contra mulheres continua sendo um grave problema social, agora reconhecido juridicamente como feminicídio em diversas legislações. A reivindicação presente no desfecho da crônica — “Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!” — vai além do contexto específico de 1915 para adquirir dimensão universal. O apelo final não representa apenas um pedido de compaixão, mas uma defesa intransigente da liberdade feminina como princípio fundamental da convivência humana.