por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 1919, Mulheres empilhadas da assisense (São Paulo) Patrícia Melo traz o tema da misoginia, numa perspectiva social e histórica, construindo uma verdadeira anatomia da violência de gênero no Brasil contemporâneo. A narrativa principal acompanha uma advogada sem nome (narradora) enviada ao Acre para acompanhar julgamentos de feminicídio.
Filha de uma mulher assassinada pelo pai e vítima de violência em seu relacionamento com Amir, a narradora percebe progressivamente que a distância entre testemunha e vítima é uma linha tênue. Para evitar construir uma narrativa linear de investigação criminal, a autora estrutura o romance com sobreposições através de três fios narrativos: processos judiciais, experiências ritualísticas e registros de assassinatos; os quais se atravessam continuamente no fluxo narrativo.
Um dos méritos centrais da obra está em demonstrar que o feminicídio não surge subitamente no instante do assassinato. O romance insiste em revelar suas camadas anteriores como pequenas formas de controle, humilhações cotidianas, relações de posse, naturalização da agressão e discursos misóginos que tendem a ser silenciados. Logo, a violência extrema aparece como resultado de um processo que se inicia bem antes.
Essa percepção torna-se particularmente forte na construção de Amir que agride a namorada com um tapa e Paulo que mata a sua (ex)companheira. Nenhum deles aparece inicialmente como figura monstruosa ou caricatural; pelo contrário, são homens integrados à normalidade social, afetivamente próximos das personagens e aparentemente comuns. Patrícia Melo descontrói, assim, a ideia de que o agressor pode ser facilmente identificado por sinais externos evidentes. A ameaça, no romance, frequentemente possui aparência cotidiana.
O caso de Txupira é um dos pontos mais importantes da obra. A jovem indígena estuprada, torturada e assassinada deixa de ser uma vítima individual para tornar-se síntese de múltiplas violências históricas: misoginia, racismo, colonialidade e invisibilização dos povos originários. A autora demonstra que determinados corpos ocupam posições distintas dentro das hierarquias sociais brasileiras. Não por acaso, a promotora Carla Penteado afirma que indígenas sequer chegam à condição da invisibilidade, sendo tratados como inexistentes.
O espaço predominante das ações é o Acre, o qual deixa de ser apenas cenário geográfico; para se tornar um espaço de diferentes formas de experiências. No seu tribunal, provas, testemunhos e sentenças são organizados; enquanto a floresta reorganiza memória, corpo e imaginação. A presença do Santo Daime, do carimi, dos Ch’aska, de Zapira e das guerreiras amazonas traz para a narrativa uma dimensão ritualística que elabora outra forma de justiça. Enquanto o sistema jurídico frequentemente transforma mulheres assassinadas em processos e provas periciais, as guerreiras devolvem-lhes voz, memória e poder.
Ao trazer, em forma versificada, casos de feminicídios em diversas partes do Brasil, Patrícia Melo confirma sua escrita verossímil. Os casos noticiados de mulheres agredidas e mortas em seu romance encontram correspondência em inúmeras brasileiras que são assassinadas por seus companheiros e parentes. Esse intertexto real contribui para o impacto expressivo da obra, o que alerta para uma discussão permanente sobre o tema. Uma triste realidade que ainda insiste em perdurar na sociedade contemporânea, cuja herança remonta de tempos patriarcais.
Entretanto, Mulheres empilhadas não se limita à denúncia social. A autora constrói uma narrativa capaz de transformar números e estatísticas em histórias humanas, devolvendo nome, rosto e memória às vítimas. Ao acompanhar a trajetória da narradora, o leitor percebe que o feminicídio não é um problema distante, restrito às páginas policiais, mas uma violência que atravessa diferentes classes sociais, regiões e relações afetivas.