por Márcio Adriano Moraes
Publicado em Tutameia: terceiras estórias (1967), último livro lançado por João Guimarães Rosa em vida, o conto Esses Lopes é uma narrativa sobre violência, poder e resistência feminina. Em apenas três páginas, Rosa constrói uma história que aborda patriarcado, pobreza, linguagem, emancipação e liberdade. Como ocorre em grande parte de sua obra, o autor transforma uma experiência regional do sertão mineiro em uma reflexão universal sobre a condição humana.
A narrativa é conduzida por Flausina, personagem que revisita sua trajetória após libertar-se dos homens da família Lopes. A mulher que narra, porém, já não é a jovem indefesa do passado, mas alguém que sobreviveu à violência e recuperou o controle da própria vida.
Como é típico de Guimarães Rosa, a narrativa vai se construindo com marcas da oralidade sertaneja, regionalismos, inversões sintáticas e imagens poéticas. Essa linguagem reproduz a forma pela qual Flausina percebe o mundo e organiza suas lembranças, isto é, fragmentário, construído por meio de memórias, observações e reflexões que se entrelaçam continuamente.
O enredo apresenta a história de uma moça pobre que, ainda adolescente, é tomada por Zé Lopes, membro de uma família poderosa que domina a região por meio da riqueza, da posse da terra e da força. Incapazes de protegê-la, seus pais assistem à sua submissão. A partir desse momento, Flausina passa a viver uma rotina marcada pela sujeição física, emocional e sexual. Após a morte do primeiro Lopes, outros membros da família tentam assumir seu controle, reproduzindo a mesma lógica patriarcal que transforma a mulher em objeto de posse.
A violência aparece incorporada ao cotidiano, numa estrutura social em que o poder masculino se encontra legitimado pelas relações econômicas e pelas tradições locais. Entretanto, Flausina aprende gradualmente a compreender o funcionamento do poder que a oprime e, através da inteligência, da observação e da astúcia, consegue mudar sua realidade. Ela percebe que os homens da família Lopes podem ser vencidos pelos próprios vícios que os movem: cobiça, ciúme, arrogância, posse. Ela, então, manipula discursos, cria intrigas, sugere interpretações e explora rivalidades. Assim, os próprios mecanismos patriarcais acabam sendo utilizados contra os homens que os sustentam.
Desde o início, Flausina reconhece que sua maior vulnerabilidade deriva da pobreza. Quando afirma que era “órfã de dinheiro”, identifica a verdadeira origem de sua fragilidade social. Sem recursos, ela não possui meios de proteção diante do poder dos Lopes. Por isso, sua emancipação passa necessariamente pela conquista da autonomia financeira. Dessa forma, ao longo da narrativa, a protagonista cria mecanismos para tirar praticamente tudo dos Lopes. Em uma sociedade em que o dinheiro sustenta as relações de poder, a liberdade de Flausina depende também de sua autonomia econômica.
Embora a morte dos Lopes represente a derrota dos opressores, o objetivo maior de Flausina não é destruir, mas reconstruir. Livre da tutela de homens cruéis, ela passa a desejar amores, sonhos e projetar seu futuro. Por isso, Esses Lopes pode ser lido como uma narrativa de renascimento. A menina pobre que sonhava com flores, enxoval e casamento ressurge transformada em uma mulher consciente de seu valor e de sua liberdade, agora com um homem que vê os seus agrados. O sofrimento não desaparece de sua memória, mas deixa de definir sua identidade. Flausina não se reconhece apenas como vítima; ela se afirma como sujeito de sua própria história.