por Márcio Adriano Moraes
Lançado em 2015, Ainda estou aqui, do escritor, dramaturgo e jornalista paulistano Marcelo Rubens Beyrodt Paiva é uma narrativa memorialística contemporânea, na qual memória individual e testemunho histórico se enlaçam para elaboração subjetiva de dois traumas: o desparecimento do pai (Rubens) e o Alzheimer da mãe (Eunice). Trata-se de um livro que transcende a simples autobiografia, tornando-se um híbrido entre relato pessoal, narrativa histórica e reflexão sobre a própria condição da memória.
Do ponto de vista genérico, Ainda estou aqui pode ser classificado como uma obra de memórias, com forte dimensão testemunhal. O autor reconstrói a trajetória de sua família, especialmente a figura do pai, Rubens Paiva, desaparecido político durante a ditadura, e da mãe, Eunice Paiva, cuja resistência se torna um dos eixos centrais do livro. Contudo, não se trata de uma narrativa linear ou documental no sentido estrito: há uma evidente construção literária, que reorganiza o passado a partir das lacunas, das emoções e da própria instabilidade da memória.
A divisão em três partes — que vão da infância à maturidade e ao pós-luto — totalizando, dezenove capítulos titulados, evidencia uma estrutura que acompanha não apenas os acontecimentos, mas também o processo de elaboração do conflito . O livro, dessa forma, é menos uma reconstituição factual e mais uma tentativa de compreender o impacto da ausência e da violência do Estado sobre a subjetividade.
O estilo de Marcelo Rubens Paiva é marcado por uma escrita fragmentária, coloquial e, ao mesmo tempo, profundamente reflexiva. Há uma oscilação constante entre tom íntimo confessional, metalinguagem e momentos de análise crítica da realidade histórica. Essa alternância produz um efeito de autenticidade, como se o leitor acompanhasse o fluxo da memória em sua forma mais espontânea. A linguagem incorpora elementos da oralidade, repetições, digressões, reprodução de documentos e cortes abruptos, reproduzindo o funcionamento da lembrança. O próprio título do livro sugere uma afirmação de presença diante da ausência: uma resistência simbólica à tentativa de apagamento promovida pela ditadura no caso do pai; e do Alzheimer, no caso da mãe.
Além disso, o texto frequentemente recorre à ironia e à crítica implícita, especialmente ao tratar da narrativa oficial construída pelos meios de comunicação durante o regime, como se observa nas manchetes que distorcem os fatos sobre o desaparecimento de Rubens Paiva. Esse recurso demonstra o confronto entre memória pessoal e discurso institucional.
O foco narrativo é em primeira pessoa, com um narrador-personagem que revisita sua própria infância, juventude e fase adulta. Essa escolha é fundamental para a construção do efeito emocional da obra, pois o narrador não apenas relata os acontecimentos, mas também os interpreta à luz de sua experiência posterior. Há, no entanto, uma duplicidade de perspectiva: o olhar da criança, que testemunha os fatos sem compreendê-los plenamente, e o olhar do adulto, que revisita essas memórias com consciência histórica.
Ainda quanto ao narrador, ou seja, o próprio filho; ele também assume uma posição ética ao reconstruir a memória do pai e da mãe, transformando o relato em um gesto de resistência contra o esquecimento. A escrita, nesse sentido, se torna um ato político.
As personagens centrais são profundamente marcadas pela realidade histórica, mas também possuem densidade psicológica: Rubens Paiva, o pai, aparece como uma figura paradoxal, já que está presente na memória afetiva, mas ausente na realidade concreta. Sua prisão e desaparecimento constituem o núcleo traumático da narrativa. O fato de ser um político moderado, não vinculado diretamente à luta armada, reforça o caráter arbitrário da repressão. Eunice Paiva, a mãe, é talvez a personagem mais complexa da obra. Sua postura diante da repressão é marcada por uma “frieza” estratégica, que revela força, inteligência e capacidade de resistência . Ao longo do livro, ela se transforma em símbolo de luta pelos direitos humanos, sobretudo quanto às causas indígenas; mas também em figura trágica, especialmente quando acometida pela doença degenerativa na velhice. Além dos pais, as irmãs do narrador (Veroca, Eliana, Nalu e Babiu) aparecem como figuras importantes na constituição do ambiente doméstico e na partilha das experiências. Elas ajudam a evidenciar como o desaparecimento de Rubens Paiva não afeta apenas um indivíduo, mas toda a estrutura familiar. O próprio Marcelo Rubens Paiva, enquanto personagem, se desdobra em múltiplas camadas: criança, jovem e adulto; cada qual com um grau diferente de compreensão dos acontecimentos. Há também outras personagens como amigos e agentes do Estado, os quais contribuem para a construção do ambiente social e político, mas sempre subordinados ao núcleo familiar.
O tempo narrativo é não linear, organizado a partir da lógica da memória. Há constantes analepses (retornos ao passado) e prolepses (antecipações), o que reforça a ideia de que o passado não está encerrado, mas continua a interferir no presente. O tempo psicológico, dessa maneira, é predominante, já que mais importante do que a sequência dos fatos é a forma como eles são lembrados e ressignificados. Cronologicamente, a narrativa transita entre diferentes momentos históricos: a infância do narrador nos anos 1960, o período da ditadura, e o presente da escrita, século XXI, marcado pela revisão histórica e pela atuação da Comissão da Verdade. Esse entrelaçamento temporal evidencia a permanência da dúvida quanto à morte de Rubens ao longo das décadas.
A história se ambienta essencialmente no Rio de Janeiro, porém o espaço principal é o ambiente doméstico, especialmente a casa da família Paiva, que se transforma de lugar de segurança em espaço de tensão e medo com a chegada dos agentes da repressão. A invasão desse espaço simboliza a violação da intimidade promovida pelo regime. Outros espaços relevantes incluem os centros de detenção, embora muitas vezes representados de forma indireta, por meio de relatos e suposições, o que reforça a dimensão do desaparecimento e da incerteza. Há também uma ampliação do espaço narrativo para o âmbito público, especialmente nas referências à imprensa, às instituições e aos eventos políticos. Esse movimento mescla o privado e o coletivo.
O contexto da ditadura militar brasileira é central para a compreensão da obra. O livro destaca o funcionamento do aparato repressivo, incluindo prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e manipulação da informação. A narrativa mostra como a violência do Estado atinge não apenas os indivíduos diretamente envolvidos, mas também suas famílias, com ecos na sociedade como um todo. A ausência de Rubens Paiva não é apenas uma perda pessoal, mas um símbolo das violações de direitos humanos ocorridas no período. Além disso, o livro dialoga com o processo de redemocratização e com a busca por memória, verdade e justiça, especialmente nas referências à Comissão Nacional da Verdade .
Entre as principais temáticas da obra, destacam-se: memória e esquecimento: problematização da fragilidade da memória e a dificuldade de reconstruir o passado, numa narrativa fragmentária que reflete essa instabilidade; ausência e luto: com a ausência do pai, o luto é prolongado, incompleto, pois não há corpo, não há confirmação oficial da morte; violência de Estado: denúncia das práticas repressivas da ditadura, evidenciando sua arbitrariedade e crueldade; identidade: o narrador busca compreender sua própria identidade a partir da história familiar e do contexto político; resistência: figura de Eunice Paiva simboliza a resistência ética e política diante da opressão, que se reconstrói como mãe e mulher para sustentar os filhos e buscar por justiça.
Ainda estou aqui é, dessa forma, uma obra que mescla literatura e história, transformando a experiência pessoal em testemunho coletivo. A escrita de Marcelo Rubens Paiva recusa a linearidade e a objetividade absoluta, optando por uma abordagem que privilegia a subjetividade e a emoção. Ao fazê-lo, o autor não apenas narra uma história, mas questiona os próprios limites da representação do passado. Trata-se, portanto, de um livro que se insere na tradição das narrativas de memória, ao lado de outras obras que buscam evidenciar as repressões históricas do regime militar por meio da literatura. Ao afirmar “ainda estou aqui”, o narrador reivindica não apenas uma presença física, mas a permanência da memória como forma de resistência contra o esquecimento.