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Márcio Moraes
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Textos

Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum

por Márcio Adriano Moraes

Publicado em 1989, romance de estreia do amazonense Milton Hatoum, Relato de um certo Oriente já antecipa muitos dos traços que se consolidariam em sua produção posterior: a fragmentação do relato, a multiplicidade de vozes narrativas e a centralidade da experiência da imigração como matriz de conflitos subjetivos e históricos. Nesse contexto, a obra traz memória e identidade por meio de uma narrativa não linear, em que o retorno da narradora a Manaus desencadeia um processo de rememoração fragmentária que evidencia as tensões entre pertencimento, deslocamento e reconstrução do passado familiar.

 

O romance, dessa forma, do ponto de vista estrutural, se organiza a partir de uma narrativa fragmentada e polifônica. Não há uma linearidade cronológica rígida; ao contrário, o enredo é construído por meio de rememorações, cartas, depoimentos e relatos que se entrecruzam. Essa opção formal aproxima a obra de uma estética moderna e pós-moderna, em que a verdade narrativa não é unívoca, mas construída por múltiplas perspectivas. O narrador principal — uma mulher que retorna a Manaus após anos de ausência — torna-se o eixo agregador dessas memórias dispersas, mas não como instância totalizadora. Sua voz se mistura a outras, criando um mosaico narrativo que exige do leitor um papel ativo na recomposição dos fatos.

 

A memória, desse modo, não é apenas tema, mas princípio estruturante da narrativa. O romance se constrói como um exercício de rememoração, no qual o passado é constantemente revisitado, reinterpretado e, em certa medida, reinventado. Essa memória não é estável; ela é lacunar, subjetiva e, muitas vezes, contraditória. O que se observa é uma tensão entre o desejo de recuperar o passado e a impossibilidade de apreendê-lo integralmente. Assim, Hatoum problematiza a própria natureza da memória, evidenciando seu caráter fragmentário e sua dependência da linguagem.

 

No plano temático, a obra aborda a experiência da imigração libanesa na Amazônia, especialmente em Manaus. A família retratada no romance representa esse deslocamento geográfico e cultural, vivendo entre dois mundos: o Oriente de origem e o Ocidente amazônico de acolhida. Essa condição híbrida gera conflitos identitários, que se manifestam tanto no plano individual quanto no coletivo. As personagens carregam consigo marcas da tradição libanesa — costumes, valores, religiosidade —, mas também são atravessadas pelas transformações impostas pelo novo espaço em que vivem.

 

Manaus, nesse contexto, não é apenas cenário, mas elemento constitutivo da narrativa. A cidade aparece como um espaço de confluência cultural, marcado por contrastes e tensões. Há, por um lado, a memória de um passado próspero, ligado ao ciclo da borracha; por outro, uma realidade de decadência e transformação. Esse espaço urbano reflete, em escala ampliada, o próprio drama das personagens: a sensação de perda, deslocamento e busca por pertencimento. A cidade, assim, funciona como metáfora da condição humana na modernidade tardia — fragmentada, instável e atravessada por múltiplas temporalidades.

 

Outro aspecto relevante da obra é a construção das personagens, que se dá de forma complexa e esférica. Não há tipos fixos ou unidimensionais; ao contrário, os personagens são apresentados em sua ambiguidade e contradição. A figura de Emilie, por exemplo, é central nesse universo narrativo. Ela encarna a força da tradição, mas também revela fragilidades e tensões internas. Sua presença é quase mítica, como eixo simbólico da família. Ao redor dela orbitam outras personagens igualmente densas, como Hakim, cuja trajetória evidencia o deslocamento cultural e a busca por pertencimento; Samara Délia, marcada por uma existência atravessada por perdas e silêncios; e a própria narradora (filha adotiva), cuja tentativa de recompor o passado familiar expõe os limites da memória e da linguagem.

 

A linguagem de Hatoum merece destaque pela sua precisão e caráter sensorial. O autor constrói uma prosa marcada por imagens vívidas, que evocam não apenas o espaço físico, mas também estados emocionais e atmosferas subjetivas. Há um cuidado evidente na escolha lexical, que contribui para a criação de um texto ao mesmo tempo lírico e contido. Essa linguagem reforça o caráter introspectivo da narrativa, aproximando o leitor da experiência íntima das personagens.

 

Além disso, elementos como a casa da família, os objetos herdados e os relatos transmitidos de geração em geração servem de signos de memória e identidade. Esses elementos não são meros detalhes descritivos; eles carregam significados profundos, relacionados à permanência e à transformação. A casa, por exemplo, pode ser lida como espaço de memória, mas também como lugar de conflito e ruptura.

 

A questão do tempo é outro eixo fundamental da obra. O romance rompe com a linearidade temporal tradicional, adotando uma estrutura em que passado e presente se interpenetram constantemente. Essa temporalidade fragmentada reforça a ideia de que o tempo da memória não segue uma ordem cronológica, mas afetiva. Os acontecimentos são recuperados conforme sua relevância emocional, e não segundo uma sequência lógica. Isso confere à narrativa um caráter quase circular, em que certos temas e imagens retornam sob novas perspectivas.

 

No plano mais amplo, Relato de um certo Oriente pode ser lido como uma reflexão sobre identidade cultural em contextos de diáspora. A obra problematiza a ideia de pertencimento, mostrando que as personagens vivem em uma espécie de “entre-lugar” — nem totalmente ligados à terra de origem, nem plenamente integrados ao novo espaço. Essa condição gera uma identidade híbrida, marcada por tensões e negociações constantes. Nesse sentido, o romance dialoga com questões contemporâneas relacionadas à migração, globalização e multiculturalismo.

 

Outro ponto importante é a presença do silêncio como elemento narrativo. Há aspectos da história que não são plenamente revelados, lacunas que permanecem abertas. Esse silêncio não é um vazio, mas um espaço de significação. Ele sugere aquilo que não pode ser dito, seja por dor, trauma ou impossibilidade de expressão. Assim, o não dito torna-se tão significativo quanto o dito, contribuindo para a densidade interpretativa da obra.

 

Do ponto de vista estético, o romance se insere em uma tradição literária que valoriza a fragmentação e a subjetividade, dialogando com autores pós-modernos que exploram a memória e a identidade de forma não linear. Ao mesmo tempo, mantém uma forte ancoragem no contexto brasileiro, especialmente amazônico, o que lhe confere singularidade regionalista. Hatoum consegue unir o local e o universal, construindo uma narrativa que, embora situada em Manaus, aborda questões amplamente humanas, a semelhança do regionalismo universal de Guimarães Rosa.

 

A obra também pode ser analisada sob a perspectiva da narrativa como reconstrução. A narradora, ao retornar à cidade e revisitar o passado, busca recompor uma história familiar marcada por perdas e silêncios. No entanto, essa reconstrução é sempre parcial, mediada pela memória e pela linguagem. O romance, assim, evidencia os limites do conhecimento e da representação, sugerindo que toda narrativa é, em alguma medida, uma construção subjetiva.

 

Em termos de recepção, o fato de o romance ter sido premiado com o Jabuti de Melhor Romance em 1990 indica seu reconhecimento crítico e sua relevância no cenário literário brasileiro. Trata-se de uma obra que inaugura uma trajetória autoral consistente, consolidando Milton Hatoum como um dos principais nomes da literatura contemporânea no Brasil.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 16/04/2026
Alterado em 05/05/2026
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