por Márcio Adriano Moraes
O maranhense Aluísio Azevedo (1857-1913) publica, em 1890, a obra máxima do Naturalismo brasileiro, O Cortiço. Através de uma leitura crítica da sociedade urbana carioca, o autor expõe as engrenagens da exploração econômica, da desigualdade social, do racismo e da opressão de gênero a partir de uma perspectiva determinista, segundo a qual o indivíduo é moldado pelo meio, pela hereditariedade e pelas circunstâncias históricas. Mais do que contar a história de personagens isolados, o livro constrói uma verdadeira “biologia social” da vida coletiva, fazendo do próprio cortiço uma entidade viva, protagonista e síntese das forças que regem a existência humana.
O Naturalismo pode ser compreendido como uma vertente radical do Realismo que, influenciada pelas ciências experimentais do século XIX (positivismo, determinismo e evolucionismo), buscava explicar o comportamento humano por leis objetivas. Inspirado sobretudo nas ideias de Émile Zola, Aluísio Azevedo concebe o romance como um laboratório social no qual o escritor observa, descreve e analisa as reações humanas submetidas a um ambiente degradado e a relações de poder desiguais.
No Brasil, o Naturalismo ganha contornos próprios ao dialogar com um país recém-saído da escravidão, marcado pela imigração europeia, pela urbanização acelerada do Rio de Janeiro e pela transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado precário. O romance denuncia o chamado “capitalismo selvagem” em formação e desmonta ilusões liberais de ascensão social baseada apenas no mérito, revelando a violência estrutural que sustenta o enriquecimento de poucos à custa da miséria de muitos.
O romance é narrado em terceira pessoa, por um narrador onisciente, que domina tanto as ações quanto a interioridade das personagens. Esse narrador adota um olhar analítico, frequentemente impessoal e por vezes cruel, coerente com o projeto naturalista de observação científica da realidade. Não há idealização moral nem sentimentalismo, uma vez que as personagens são descritas em sua dimensão física, instintiva e social, muitas vezes por meio de metáforas animalizantes (zoomorfização) e vocabulário ligado à fisiologia e à degradação. Quanto à linguagem do narrador, ela contribui para a desumanização progressiva dos indivíduos, reforçando a tese central do romance: o meio corrompe, condiciona e rebaixa o ser humano. Ao mesmo tempo, essa estratégia revela uma crítica implícita às estruturas sociais que produzem tal degradação, deslocando a responsabilidade do “vício individual” para o sistema econômico e urbano.
Ambientado no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, o romance concentra-se quase integralmente no cortiço de João Romão, contraposto ao sobrado de Miranda. Essa oposição espacial traduz uma clivagem social: de um lado, o mundo da pobreza, da promiscuidade e do trabalho extenuante; de outro, a burguesia comercial, hipócrita e aspirante à aristocracia. Nesse contexto, o cortiço não é apenas cenário, mas uma personagem coletiva, dotada de vida própria, ou seja, personificado. Aluísio Azevedo o descreve como um organismo em ebulição — que “acorda”, “respira” e “fermenta” —, imagem que reforça a ideia de coletividade regida por impulsos biológicos. Ao longo do romance, esse espaço passa por uma transformação significativa: do caos orgânico inicial à organização mecânica posterior, quando João Romão o reforma, disciplina e rebatiza, expulsando os moradores “inadaptados”. Essa mudança simboliza a passagem da espontaneidade para o controle capitalista e antecipa processos modernos de higienização urbana e exclusão social.
Com relação ao tempo da narrativa, é predominantemente cronológico e linear, acompanhando a ascensão econômica de João Romão e a decadência de diversas personagens. Essa linearidade reforça o caráter experimental do romance, permitindo observar os efeitos cumulativos do meio sobre os indivíduos. O tempo histórico é claramente marcado pelo contexto da abolição da escravatura, pelo burburinho republicano e pelas transformações urbanas do período, ainda que esses eventos apareçam mais como pano de fundo ideológico do que como ação direta.
O enredo gira em torno da trajetória de João Romão, imigrante português que enriquece explorando o trabalho alheio, especialmente o de Bertoleza, escravizada fugida que acredita possuir uma falsa carta de alforria. A construção do cortiço, o crescimento da pedreira e o conflito com o vizinho Miranda compõem o eixo econômico da narrativa. Paralelamente, desenvolvem-se histórias individuais que ilustram a ação corrosiva do meio: Jerônimo, trabalhador disciplinado, degrada-se moralmente ao “abrasileirar-se” sob o clima tropical e a sedução de Rita Baiana; Piedade, sua esposa, afunda no alcoolismo e na miséria; Pombinha, inicialmente idealizada, tem sua sexualidade despertada de forma traumática e acaba lançada à prostituição. As personagens, assim, são majoritariamente tipos sociais, representativos de grupos, classes e funções. O traço comum a todas é a submissão às forças deterministas. Raramente há espaço para escolhas livres ou redenção ética. Mesmo as personagens que parecem ascender o fazem por meio da exploração, da violência ou da negação do outro.
Objetivamente, entre os principais temas do romance, destacam-se: determinismo social e biológico: o comportamento humano como resultado do meio, da raça e das circunstâncias históricas; exploração econômica e luta de classes: o enriquecimento de João Romão em contraste com a miséria coletiva; sexualidade e repressão: o desejo aparece como força instintiva, frequentemente associada à degradação moral, especialmente das mulheres; urbanização e exclusão: o cortiço como metáfora das contradições da cidade moderna; hipocrisia social: o abolicionismo de fachada e a moral burguesa desmascarados no final do romance.
Embora marcado por concepções científicas hoje questionáveis, o romance conserva força crítica ao denunciar a naturalização da miséria e a brutalidade das relações econômicas. Ao transformar o espaço coletivo em protagonista e ao expor o ser humano reduzido à condição de coisa ou animal, Aluísio Azevedo constrói uma obra incômoda, essencial para compreender não apenas o Naturalismo, mas também as raízes históricas de muitos impasses sociais brasileiros.