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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

O Quinze, de Rachel de Queiroz

por Márcio Adriano Moraes

Publicado em 1930, O Quinze, romance de estreia da fortalezense Rachel de Queiroz (1910-2003), é considerada uma das obras fundadoras do chamado Romance de 30 da segunda fase do Modernismo brasileiro. A narrativa toma como eixo histórico a grande seca de 1915 no Ceará, experiência vivida pela própria autora na infância, convertida em matéria literária de forte densidade social, humana e estética. Longe do pitoresco regionalista ou do sentimentalismo romântico, o romance constrói uma visão crítica e sóbria da realidade nordestina, através de drama individual, denúncia social e reflexão ética.

 

A partir de uma leitura crítica, pode-se afirmar que o romance organiza-se a partir de dois planos narrativos paralelos, que se alternam ao longo da obra e se complementam criticamente. O primeiro acompanha Conceição, jovem professora, urbana, leitora assídua e portadora de ideias progressistas, que passa uma temporada na fazenda da avó, Mãe Nácia, em Quixadá. Nesse núcleo, desenvolve-se a relação afetiva entre Conceição e Vicente, primo da protagonista, proprietário rural ligado ao mundo da terra, do gado e da resistência física à seca. O conflito central desse plano não é apenas amoroso, mas sobretudo ideológico, uma vez que a incompatibilidade entre o universo intelectualizado de Conceição e o pragmatismo rude de Vicente revela os limites impostos pelo meio, pela tradição e pelas expectativas sociais.

 

O segundo plano, de caráter mais dramático, acompanha a trajetória do vaqueiro Chico Bento, sua esposa Cordulina e os filhos, representantes dos retirantes, expulsos da terra pela fome, pela seca e pela ausência de políticas públicas efetivas. A marcha da família pelo sertão, marcada por mortes, perdas e desagregação, culmina na chegada aos campos de concentração de retirantes e, posteriormente, na tentativa de recomeço em outra região do país. Esse núcleo confere à obra seu caráter mais incisivo de denúncia social, expondo a miséria estrutural e a violência a que são submetidos os sertanejos pobres.

 

A alternância entre esses dois planos evita a linearidade simplista e amplia o alcance crítico do romance. Ao justapor proprietários e despossuídos, resistência e expulsão, afeto e sobrevivência, Rachel de Queiroz constrói uma visão complexa da seca como fenômeno natural e, sobretudo, social.

 

Quanto ao foco narrativo, o enredo é conduzido por um narrador em terceira pessoa, onisciente, que penetra o interior das personagens, revelando pensamentos, dilemas e contradições, sem recorrer a julgamentos explícitos ou sentimentalismos excessivos. Essa postura narrativa contribui para o tom contido e analítico da obra, reforçando sua dimensão realista.

 

O tempo histórico é claramente delimitado: a seca de 1915, uma das mais devastadoras da história do Nordeste. O tempo cronológico acompanha o agravamento da estiagem, funcionando como elemento estruturante do enredo. Já o tempo psicológico manifesta-se sobretudo nos conflitos internos de Conceição, dividida entre desejo, consciência social e lucidez crítica.

 

O espaço é o sertão cearense, especialmente a região de Quixadá, ou seja, com verossimilhança espacial externa. Porém, não é mero pano de fundo, mas força determinante da ação. A paisagem árida, a terra rachada, a morte do gado e o esvaziamento das fazendas condicionam decisões, relações humanas e destinos individuais. Em contraste, a cidade — especialmente Fortaleza — surge como espaço ambíguo com promessa de socorro mas, ao mesmo tempo, cenário de exclusão e confinamento dos retirantes.

 

As personagens de O Quinze são construídas com economia expressiva e densidade alegórica. Conceição destaca-se como uma figura feminina moderna para seu tempo, independente, crítica, leitora de obras socialistas e feministas, questiona o casamento como destino obrigatório da mulher. Sua recusa ao matrimônio com Vicente não decorre da ausência de afeto, mas da consciência das diferenças estruturais entre seus mundos. Vicente, por sua vez, representa o homem do sertão, resistente, trabalhador, mas limitado pela formação e pelo meio. Sua luta para salvar o gado revela dignidade e esforço, mas também evidencia os limites do individualismo diante de uma calamidade coletiva. No núcleo dos retirantes, Chico Bento simboliza o trabalhador rural expropriado, cuja dignidade é progressivamente corroída pela fome e pela miséria. A morte do filho Josias, por exemplo, e a dispersão da família são imagens extremas da violência social provocada pela seca e pela negligência do Estado.

 

Com relação à linguagem de Rachel de Queiroz, ela é simples, direta e precisa, marcada por frases enxutas e vocabulário funcional, sem ornamentos excessivos; o que lembra um pouco a escrita de seu contemporâneo Graciliano Ramos. O uso de regionalismos é controlado e contextualizado, garantindo clareza ao leitor sem perder a marca local. Essa opção estilística reforça o compromisso da obra com a representação objetiva da realidade, alinhando-se ao projeto estético do romance regionalista de 30. Observa-se também uma escrita de forte poder imagético (plasticidade), especialmente nas descrições da paisagem e da marcha dos retirantes, em que a contenção verbal intensifica o impacto emocional das cenas.

 

Ratificando o que foi dito no início, O Quinze insere-se no Modernismo da década de 1930, período marcado pela consolidação do romance social e regionalista. Diferentemente do regionalismo romântico ou folclórico, a obra de Rachel de Queiroz traz realismo social, crítica política e análise das estruturas de poder que sustentam a miséria nordestina. A seca não é tratada como fatalidade divina, mas como fenômeno agravado pela desigualdade social, pelo abandono governamental e pelo que mais tarde se chamaria de “indústria da seca”. Assim sendo, pode-se afirmar que as temáticas centrais de O quinze são a seca como força determinante da vida social; a desigualdade social entre proprietários e retirantes; a condição feminina, especialmente a tensão entre tradição e autonomia; a migração forçada e a desagregação familiar; a crítica à naturalização da miséria e à ineficiência do poder público.

 

O Quinze, dessa forma, permanece atual não apenas como registro histórico, mas como obra literária de grande força ética e estética. Ao propor o encontro de drama humano, crítica social e rigor narrativo, Rachel de Queiroz traz uma nova forma de representar o Nordeste na literatura brasileira, rompendo com estereótipos e propondo uma leitura lúcida e humanizada da realidade sertaneja.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 24/01/2026
Alterado em 24/06/2026
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