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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

São Bernardo, de Graciliano Ramos

por Márcio Adriano Moraes

Publicado em 1934, São Bernardo, de Graciliano Ramos, está inserido na Segunda Geração do Modernismo. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que dialoga com o projeto crítico do chamado “Romance regionalista de 30”, afasta-se de soluções simplificadoras e de discursos panfletários, apostando na construção de uma narrativa densa, psicológica e formalmente rigorosa. Em vez de apresentar a denúncia social de forma direta, Graciliano encena essa crítica por meio da constituição de uma consciência narrativa profundamente marcada pela lógica da posse, da violência e da desumanização. O romance, assim, desloca o eixo do conflito para o interior do sujeito, fazendo do drama individual de Paulo Honório um espelho das contradições estruturais do Brasil agrário em processo de modernização conservadora.

 

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por Paulo Honório, personagem-narrador que escreve sua história dois anos após a morte da esposa, Madalena. Desde as primeiras páginas, o leitor é alertado para o caráter seletivo e interessado desse relato. Paulo Honório não se propõe a “bancar escritor”, tampouco a contar tudo o que viveu, escrevendo o que lhe convém, cortando passagens, adaptando diálogos e confessando abertamente que reproduz apenas aquilo que julga relevante. Esse procedimento compromete qualquer ideia de neutralidade narrativa e instaura uma ambiguidade fundamental, na qual o leitor acompanha uma história filtrada por uma consciência que, embora busque compreender-se, permanece presa a justificativas e racionalizações. A narração se constrói, dessa forma, no desdobramento entre dois tempos do sujeito: o Paulo Honório do passado, agente das ações (tempo do enunciado), e o Paulo Honório do presente da escrita (tempo da enunciação), avaliativo e reflexivo, mas incapaz de alcançar uma autocrítica plena.

 

O tempo narrativo, dessa maneira, não é linear. Embora exista um eixo cronológico relativamente claro — infância miserável, juventude violenta, prisão, enriquecimento progressivo, aquisição da fazenda São Bernardo, casamento, crise conjugal e suicídio de Madalena —, essa sequência é constantemente interrompida por digressões, comentários metanarrativos e mergulhos no tempo psicológico. A memória não se organiza como relato ordenado, mas como fluxo descontínuo, atravessado por associações involuntárias, remorsos tardios e reflexões existenciais. O capítulo XIX, por exemplo, inteiramente introspectivo, é exemplar nesse sentido: nele, o tempo objetivo se dissolve, e o narrador se entrega a um fluxo de consciência marcado por contradições, em que sentimentos inconciliáveis — raiva e ternura, lucidez e delírio — coexistem. O mesmo ocorre no desfecho do romance, quando o tempo cronológico cede lugar à avaliação amarga de uma vida que, apesar do sucesso material, revelou-se vazia.

 

O espaço central da narrativa é a fazenda São Bernardo, localizada no interior de Alagoas, no município de Viçosa. Longe de ser um simples cenário regional, esse espaço assume valor simbólico decisivo. São Bernardo é o grande projeto de vida de Paulo Honório, o eixo em torno do qual se organiza sua identidade. Possuir a fazenda (que pertencia a seu patrão, Salustiano Padilha) significa conquistar respeito, poder e reconhecimento social. A relação do protagonista com a terra é inteiramente mediada pela lógica do capital: a fazenda é investimento, instrumento de dominação e prova de sucesso. As benfeitorias introduzidas — estrada, escola, igreja, eletricidade — não decorrem de um impulso humanitário, mas de cálculos políticos e econômicos. O espaço rural aparece, assim, como território de exploração e violência, revelando uma modernização que preserva estruturas arcaicas de mando e exclusão. Graciliano Ramos, nesse ponto, desmonta qualquer idealização do campo e expõe a face brutal do coronelismo e da concentração de poder.

 

Paulo Honório, órfão, de origem humilde, ex-guia de cego e ex-presidiário, constrói sua fortuna por meio da astúcia, da violência e da ausência de escrúpulos. Sua visão de mundo é regida pelo princípio do “ter”: tudo — pessoas, objetos, relações, valores — é avaliado segundo critérios de utilidade e lucro. Até mesmo gestos aparentemente generosos são contabilizados como compensações ou investimentos. Essa lógica se estende às relações humanas: trabalhadores são vistos como bichos; aliados, como instrumentos; mulheres, como fêmeas destinadas à reprodução. O protagonista acredita que a força e o domínio são condições naturais da sobrevivência, e frequentemente recorre a explicações deterministas para justificar sua brutalidade, atribuindo à “profissão” e às circunstâncias da vida as qualidades negativas de seu caráter.

 

Madalena surge como o contraponto mais nítido a esse universo ético. Professora, letrada, defensora da educação e sensível às injustiças sociais, ela encarna valores opostos aos do marido. Enquanto Paulo Honório se orienta pelo acúmulo e pela posse, Madalena se orienta pelo cuidado, pela solidariedade e pela preocupação com o outro. No entanto, sua interioridade nunca é plenamente acessível ao leitor. Tudo o que sabemos sobre Madalena passa pelo filtro da narração de Paulo Honório, o que reforça a ambiguidade de sua figura e impede leituras simplificadoras. Ainda assim, o conflito entre os dois não é apenas conjugal, mas profundamente ideológico, tratando-se do choque entre duas concepções de mundo inconciliáveis.

 

O casamento, para Paulo Honório, dessa forma, é pensado como negócio. Ele busca uma esposa que lhe forneça um herdeiro e respeitabilidade social, e vê em Madalena uma “boa aquisição” por sua instrução e aparente sobriedade. No entanto, ao longo da convivência, ele se depara com uma mulher que não se submete inteiramente à sua lógica. Madalena intervém na escola, questiona a exploração dos trabalhadores, critica a violência cotidiana da fazenda e exerce uma autonomia intelectual que incomoda profundamente o marido. Incapaz de compreender essa alteridade, Paulo Honório transforma a diferença em ameaça. O ciúme surge como expressão máxima dessa incapacidade de diálogo. Progressivamente, ele passa a enxergar inimigos em todos os lugares, suspeitando de Padilha, Gondim, Nogueira, do padre, dos caboclos e até da própria tia de Madalena.

 

Esse ciúme não se fundamenta em provas concretas, mas em projeções e delírios, revelando a deterioração psicológica do narrador. A violência que Paulo Honório exerce sobre Madalena — humilhações, desconfianças, controle — cria um ambiente de opressão que culmina no suicídio da personagem. A morte de Madalena constitui o ponto de ruptura da narrativa. É a partir dela que o narrador se confronta com o vazio de sua existência e decide escrever. A escrita surge, então, como tentativa tardia de compreensão e como espaço de autoexame, ainda que insuficiente para promover transformação efetiva.

 

Ao final do romance, Paulo Honório reconhece a inutilidade de sua vida. A consciência do fracasso é clara, mas não redentora. Ele entende que acumulou bens e perdeu vínculos, que destruiu a si mesmo e aos outros, mas não consegue se libertar da lógica que o moldou. A narrativa se fecha em tom circular: o homem que buscava dominar tudo termina só, envelhecido, escrevendo numa casa vazia. Não há reconciliação nem esperança, apenas a lucidez amarga de quem compreende tarde demais.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 06/01/2026
Alterado em 21/07/2026
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