Já faz seis anos. O tempo me contabiliza, querida Evinha. Você distante, numa partida tão repentina. Deixou-me cá, órfão de um carinho que não se alcança aos braços, de tão extenso. Está aí neste lado, margem terceira do rio que tanto nos encanta Rosa. Sabe aqueles lírios que gostava de olhar? Então, enchi-me de flores diversas pela ausência deles aqui em nossa terra geraizeira. Aprendi a me contemplar no meio do mato, com enxada a cutucar a terra. Verdade mesmo que eu sei é que você amava orquídeas! De minhas mãos mesmo já recebeu algumas, lembra? A natureza é sempre aconchego de refúgio, não é mesmo?
A inspiração veio daqueles pequenos da história de Tolkien. Um Condado para chamar de nosso com a serenidade de uma vida verde. O mergulho nas águas durante o calor montes-clarense, que é quase sempre. Brindar a vida em aconchego de rede. Deixar correr os olhos para o horizonte-convite do pôr do sol. Nesse espaço de destrave da rotina escolar, aprendi a gostar de pedras como Drummond. Mas quando as vejo, se o encanto de seu formato e tamanho for dos olhos, recolho-as para transformar em arte arquitetônica.
Micaele? Está bem, com saudades tantas também. Comigo embrenha esses projetos de vida para além do dia a dia. Ela é quem me encaminha por esses caminhos mais brandos. Assim, seguindo o amor da caminhada, guardando suas palavras em nosso uno coração. Amanhecemos, entardecemos e anoitecemos juntos. Mica permanece em suas leituras do fundamental. Com o encanto da tia de alunos que se encantam por ela com sua doçura atrativa que balanceia a docência. Estresse? Ah, esse vem de brinde. Felizmente os cabelos são fartos, difíceis de descabelar. Este ano ousou a aventura do ensino médio. Um retorno a estes jovens mais focados em vestibulares. E com um pulo maior para fora dos muros sólidos. Num espaço por anos querido por você, em que sua memória e história permanecem, deixando a luz a passar multiplicando cores.
Mas sei mesmo que quer saber é dela? De nosso afago diário que acalenta o estresse da rotina. Frida! Pensa numa sapequice que encanta a cada dia. Ela é quem nos acorda para outras realidades. Quando o trabalho intenso bate e nos cega, ela vem com seus olhinhos e língua a nos brilhar a vida. Completou seis anos já a travessa. E me lembro dela correndo na Ana Fagundes para pular em seus braços. Daquela manhã em sua casa que se esbanjou em seu colo a receber carinho. Ah, se pudesse, também diria: onde está a vovó Eva?
Tanta coisa aconteceu desde que se foi. No ano mesmo de sua partida, começamos a viver uma pandemia, acredita? Isso mesmo, no ano seguinte ela se oficializou no mês de março. As escolas fecharam. A molecada toda contente, comemorando como se fossem férias. Nós, professores, ficamos reflexivos, mas também nos aconchegamos num descanso. Só que não. As coisas foram ficando tensas. A Covid-19 se alastrou e milhões de pessoas morreram, inclusive próximas a nós. Tempos difíceis de isolamento. Tivemos de adaptar aulas on-line através de plataformas. Nossa, ficávamos com a câmera ligada numa aula distante sem ter a certeza se o aluno estava ou não do outro lado. Alunos formaram o ensino médio sem pisar na sala de aula. Eu também, nesse tempo, decidi cursar Filosofia, como segunda graduação. O curso que era para ser semipresencial, foi todo a distância. O existencialismo de Kierkegaard, de Heidegger, de Sartre e de tantos outros me fizeram mais contemplativo. Aquela sensação de chegança de um fim. Foi muito triste.
Aos vencedores as batatas? Não! A vida não é como o Humanitismo de Borba. Nesse ponto, Machado é mais irônico que sincero. Não há vencedores. Não se vence por sobreviver. Sobrevivência não é vitória, é fardo como ensina Rosa: “viver é muito perigoso”. As sequelas, carregamo-las agora para sempre. Uma superação que me parece longe da racionalidade. Uma obscura nuvem desceu e resiste em ficar em muitas cabeças alienadas. A loucura ganhou outros formatos para além da psiquiatria. São tantos atos estranhos e sem aquele cabimento que dá até medo.
Ah, Evinha, o mundo anda tão distante de apertos de mãos. Conflitos militares, econômicos e políticos. O Brasil perdeu muito de suas cores. E amigos e familiares se revelaram em suas formas ocultas. Retomando mais uma vez o nosso Rosa, nunca foi tão verdadeira a sua lição, então que se diga mais uma vez: “viver é muito perigo”. Mas de emenda, a gente lembra que o que ela quer da gente é coragem! Ah, perigo mesmo! A sala de aula então? Aquela dicotomia clássica que nos cercava de respeito: professor-aluno se dissolveu. Há outros “educadores” que conosco competem, até mesmo entre as carteiras. Você quer ver são nas telas de celulares e tabletes e computadores e tutti quanti. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Ah, se o Glauber soubesse a distorção de sua frase.
Falando em câmera, a Fernanda ganhou o Globo de Ouro! Depois de décadas da indicação de sua mãe, ela foi lá e nos honrou com Eunice. A triste história da família Paiva. E mais, o Oscar de melhor filme estrangeiro, o primeiro de nossa história, assim genuinamente brasileiro. O Cinema chega com seu encanto a nos deixar encantados com brilho e lágrimas. E, sabe, parece que lá no filme como cá na vida, eu escuto você a me dizer: “Ainda estou aqui”. E esse sussurro no meu íntimo me faz continuar ser aquele menino que você viu brotar na João Pinheiro para vir morar pertinho de você na Camboeiro.
Para além da sétima arte, aprofundei-me mais em leituras. Sim, o Vestibular tradicional voltou! Nossa, aquela rotina de só Enem, de só Enem... aquelas redações-receita... então, a Unimontes chegou chegando. E outras instituições também anunciaram o retorno de seus vestibulares tradicionais. Se gostei? Amei, pois elas retomaram as leituras literárias e artísticas obrigatórias. A Literatura volta a seu posto de prestígio. E eu, claro, mergulhei nos estudos literários e nas produções de análises. Uma novidade que empreendi: além do estudo impresso com análise ampla, comecei a elaborar um caderno de questões em formato e-book. Evinha, a pandemia nos abriu os olhos para uma virada de chave. O estudo on-line agora é o canal. Falando em Canal, eu também me enveredei para esse campo. Criei um canal no Youtube e estou gravando vídeos de Literatura e Linguagens. E não é que tomei gosto pela coisa.
O dizer de tudo que quero é extenso. As palavras me cutucam aqui para falar outros segredos. Vivências e observações que me chegaram. Seria com você a partilha de tudo e mais além. Quanta falta de suas palavras a acariciar meus ouvidos. Quanta falta do afeto que me fazia um filho adotivo de maturidade sempre por se maturar.
Depois de quinze anos, veio a mim uma porta. E é a você que eu perguntaria se abriria ou não. Tive de buscar outras fontes de partilhas também generosas. E, depois de reflexões, eu a abri. Não com a velocidade que Mercúrio exige, mas a abri. Com aquele jeito genuíno que bem sabe como. E ainda sobre portas, sob a aura de música que me guia, recebi aquela cadeira da academia. Não só aqui em Montes Claros, mas também em Santa Luzia! Nossos sonetos ganhando forma clássica e se encaminhando para outros ares.
Querida Evinha, ainda vou todos os anos você sabe. Nunca deixei de ir. Naquela data cristã que o calendário nos lembra em novembro. Lá deixo a flor de nosso canteiro. Aberta ou somente um botão, você sabe o amor que levo no coração. E assim farei até você sabe quando. A vida me reservou isto. Verdade, queria mesmo era levar a flor de outra forma e receber de seus braços aquele abraço. Não o tenho mais no corpo, mas o tenho no peito sempre carregado quando chega o dia. O amor permanece. E sabe, eu acredito que quando chegar a hora, também ele, junto comigo, segue.
Com carinho e abraços sempre genuínos!