por Márcio Adriano Moraes
O mirabelense Gemma Fonseca faz de sua arte um gesto de valorização da memória cultural do sertão norte-mineiro. Autodidata, o pintor encontrou em seu percurso criativo o espaço para transformar cenas do cotidiano em imagens de pertencimento. Entre as telas mais representativas de sua poética destacam-se As lavadeiras e O pilão, ambas selecionadas para o Vestibular da Unimontes – PAES 2ª Etapa 2025.
Em As lavadeiras, a cena se concentra em três mulheres às margens de um rio. Uma delas inclina-se sobre a água em pleno trabalho, num gesto de labor manual. Uma outra, sentada, apresenta o vestido com a manga caída, conferindo à cena uma sutil sensualidade, além do volume do ventre, sugerindo uma possível gravidez, remetendo à fertilidade e à continuidade da vida. A terceira, mais distante, observa o grupo em atitude contemplativa, como se representasse a memória ou a transmissão de saberes entre gerações. Há ainda, no primeiro plano, um cachorro, acrescentando realismo e ternura, reforçando a ligação entre homem e animal.
Em O pilão, a cena se concentra em uma mulher que, serena e concentrada, soca alimentos em ritmo ancestral. As galinhas no terreiro reforçam a simplicidade da vida rural, e a luz suave sugere a passagem do tempo, como ciclo cotidiano. Se em As lavadeiras prevalece o coletivo, em O pilão destaca-se a introspecção, mas ambas convergem para a ideia do cotidiano como espaço de memória e identidade.
O uso da cor é significativo nas pinturas. Os tons vibrantes e expressivos se aproximam do expressionismo, ao mesmo tempo em que a atmosfera luminosa evoca o impressionismo. A liberdade cromática não busca copiar a realidade, mas reinventá-la, transformando o rio, o corpo e as roupas em metáforas de resistência e identidade. O gesto de lavar roupas, assim, torna-se ícone cultural e celebra a força do labor feminino.
Nessa perspectiva, as duas telas dialogam com tendências vanguardistas, acrescentando a brasilidade em seus temas, o que foi muito pregado por autores da primeira fase modernista, como Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropofágico. Assim, As lavadeiras e O pilão reafirmam o compromisso de resgatar a dignidade das práticas sertanejas, devorando influências universais e devolvendo-as em linguagem regional. São obras que transcendem o estético para se tornarem documentos culturais, preservando o comum como extraordinário.