por Márcio Adriano Moraes
Publicado originalmente em 2010, Não vou mais lavar os pratos, de Cristiane Sobral, é uma obra de referência da poesia contemporânea brasileira. Seu título, por si só, já antecipa o tom de manifesto, ou seja, a recusa da submissão ao trabalho doméstico compulsório e reivindicação do tempo e espaço para o cultivo da subjetividade, da leitura e da arte. A poeta, atriz e professora, ao reunir nesse volume diversos poemas, traz vozes individuais e coletivas em torno de temas como emancipação feminina, negritude, ancestralidade, corpo e resistência.
É possível ler a obra a partir do conceito de “escrevivência”, termo cunhado por Conceição Evaristo, que significa escrever a partir da vida, da memória e da experiência da população negra e feminina. Assim faz Cristiane Sobral ao trazer à tona vozes historicamente silenciadas e convidando o leitor a repensar as estruturas sociais que moldam o cotidiano.
O livro se abre com o impactante poema “Não vou mais lavar os pratos”. Nele, o eu lírico não aceita a imposição das tarefas domésticas como destino natural, preferindo dedicar seu tempo à leitura. A cadência do texto, marcada pelo “Não vou…” repetido, inscreve o poema como uma espécie de mantra de libertação. O jogo semântico entre “estética, ética, estática” sintetiza de modo poético e conceitual a passagem do imobilismo à ação transformadora.
A força do corpo como signo de resistência aparece em vários poemas. Em “Verdade”, o cabelo negro é descrito como “alto, imponente e armado”, metáfora que ressignifica a estética afro como coroa e escudo. A ancestralidade, outro pilar da poética sobralina, surge em poemas como “Banzo”, em que o eu lírico evoca tambores e comidas tradicionais como formas de reencontro com os antepassados: “tragam, por favor, / os meus tambores, / meu acarajé”. O poema atualiza o sofrimento histórico do banzo (a saudade mortal dos africanos escravizados) para reafirmar a continuidade das tradições como forma de resistência. Já em “Nzinga guerreiras”, Sobral invoca a memória da rainha angolana Nzinga como inspiração de luta, conectando a herança africana às batalhas contemporâneas contra o racismo e o sexismo.
A dimensão erótica também é trabalhada como espaço de liberdade e afirmação. Em “Sonho de consumo”, a mulher assume o papel de sujeito do desejo, invertendo a lógica tradicional que objetifica o corpo feminino. O erotismo aqui não é submissão, mas escolha e empoderamento. Da mesma forma, em “Cesta básica”, Sobral ironiza a rotina ao inserir o sexo como item essencial da vida: “Inclua sexo na sua cesta básica / Na segunda única; na terça insana”. O humor e a irreverência reforçam a ideia de que prazer e liberdade caminham juntos.
A maternidade, por sua vez, aparece sob diversas perspectivas. Em “Materna idade”, a poeta mostra a pressão social que define a mulher pelo ato de parir, afirmando: “Serei mãe / Das minhas próprias ideias / Das escolhas / Do meu progresso”. A criação intelectual é reivindicada como forma legítima de maternidade. Já em “Ao menino que eu nunca vi”, a dor da infertilidade se transforma em poesia, revelando que a ausência também pode ser espaço de sonho e esperança.
No plano formal, a obra é marcada pelo verso livre, pela oralidade e pelo ritmo próximo da fala, elementos que reforçam a performatividade da poesia. A anáfora, a metáfora e o paralelismo são recursos recorrentes, como se observa em “Blue Garden”, no qual a reiteração “piso” constrói uma cadência de enfrentamento: “Piso no racismo, / piso sem cinismo, / piso e planto flores / azuis da cor do céu”. A repetição do verbo converte o gesto de opressão em ato criador, transformando violência em flores azuis, símbolo de transcendência.
O último bloco do livro reúne dedicatórias a pessoas reais, como em “Mãe” (para Myrian Santos) ou “Mãos à obra” (para Márcia Lobosco), reafirmando a poesia como gesto de memória e gratidão. Esses poemas finais encerram a obra em tom íntimo e coletivo, revelando que a palavra também serve para eternizar afetos e vínculos.
Não vou mais lavar os pratos é, portanto, um livro que alia lirismo e política, cotidiano e transcendência. Cristiane Sobral utiliza a poesia como espaço de denúncia contra o racismo e o machismo, mas também como celebração da vida, da ancestralidade e da liberdade feminina. Sua obra, de forma vigorosa, consolida-se no cenário da literatura brasileira contemporânea, enquanto palavra poética de resistência e transformação.