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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

Zumbi, de Pedro Boi e Ildeu Braúna

por Márcio Adriano Moraes

A canção Zumbi, composta por Pedro Boi e Ildeu Braúna e interpretada pelo Grupo Agreste, é um patrimônio cultural do Norte de Minas Gerais. Sua importância ultrapassa o campo estético, alcançando dimensões históricas, sociais e políticas, pois transforma em canto popular a memória da escravidão e da resistência negra no Brasil.

 

A letra com seus versos curtos, mantém o caráter oral típico das cantigas populares. O eu lírico assume a voz de um sujeito escravizado (o próprio Zumbi), narrando a chegada ao Brasil em um navio negreiro: “No sacolejo do navio / que cheguei aqui / meio vivo, meio morto / foi o que eu senti.” A força desse início reside na antítese “meio vivo, meio morto”, numa condição paradoxal de sobrevivência e agonia, comum à travessia atlântica. Esse tom, o eu lírico confere à canção um caráter testemunhal. Assim, não se trata de um relato individual, mas de uma voz coletiva, representativa da comunidade escravizada que, apesar do sofrimento, insiste em resistir.

 

As imagens do navio e do corpo jogado no porto representam a violência inicial do tráfico, remetendo aos tumbeiros e ao mar transformado em cemitério. A chibata, instrumento da opressão, aparece não como fim, mas como estímulo à resistência: “Se não me mata / eu torno a fugir.” Os tambores, por sua vez, simbolizam a ancestralidade africana. Seu som “ressoa nos ares” como voz imaterial que sustenta a resistência e conecta os vivos aos que vieram antes.

 

O gesto decisivo da canção é a fundação de Palmares: “Correndo na mata virgem / vou fundar Palmares.” Palmares simboliza a transformação da fuga em projeto político e coletivo, o sonho concretizado de liberdade. No refrão, o nome de Zumbi é invocado como arquétipo da resistência: “Ô nego, olê, olê Zumbi.” A repetição coral transforma a voz individual em grito comunitário, criando uma atmosfera ritualística.

 

O verso final – “capitão do mato vem aí” – devolve ao ouvinte a sensação de ameaça constante. Ao interromper a euforia do refrão, a canção não fecha em celebração, mas em tensão, lembrando que a liberdade era sempre perseguida e que a luta permanece inacabada. Essa estrutura reforça a dimensão política da obra: não há um desfecho harmonioso, mas uma abertura para a continuidade da resistência.

 

Dessa forma, mais que uma composição musical, Zumbi é uma obra de resistência e memória. Sua poética transforma dor em canto, e sua musicalidade converte a lembrança do cativeiro em grito de liberdade. Porém, a luta não se encerrou: Palmares não é apenas um passado heroico, mas um horizonte de futuro.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 20/09/2025
Alterado em 16/01/2026
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