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Márcio Moraes
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Textos

Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, de Padre Antônio Vieira

por Márcio Adriano Moraes

Pregado em 1640, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador, o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, de Padre Antônio Vieira, está inserido no contexto da Restauração de Portugal, dando fim a União Ibérica, e da ameaça de invasão holandesa na Bahia pela segunda vez. Nesse cenário de crise, o sermão não foi apenas pregação religiosa, mas instrumento político e literário, unindo fé e mobilização patriótica.

 

A cidade de Salvador vivia sob temor de invasões flamengas. Vieira, jesuíta já reconhecido por sua eloquência, assumiu o púlpito para transformar a liturgia em ato de resistência. A escolha do Salmo 43 como base do sermão, com o clamor “Exurge, quare obdormis, Domine?” (“Acordai, Senhor! Por que dormis?”), deu o tom paradoxal de toda a pregação: a criatura que ousa repreender o Criador. Esse paradoxo é traço essencial do Barroco, estilo que vive das tensões entre fé e dúvida, submissão e atrevimento.

 

O sermão organiza-se em três momentos. No exórdio (introdução), voltando-se para o Santíssimo Sacramento, Vieira inquere a Deus pelo seu aparente silêncio diante da ameaça holandesa (protestante). No desenvolvimento, embasa sua argumentação em três planos: teológico (a fé católica é a verdadeira, e Deus não pode abandoná-la), histórico (Portugal é o novo Israel, conduzido providencialmente), e patriótico (a guerra contra os holandeses é justa, pois defende não apenas a pátria, mas a honra divina). Na peroração, ou seja, na conclusão, o sacerdote repete o apelo inicial, agora intensificado pela fórmula Propter nomen tuum (“Por amor de vosso nome”): Deus deve agir não pelos homens, mas para preservar sua glória.

 

Literariamente, o sermão é exemplar da estética barroca, através de sua linguagem conceptista, a qual usa o encadeamento lógico das ideias, sempre sustentadas por exemplos bíblicos. A anáfora (repetição) e a apóstrofe (vocativo) reforçam o ritmo e a emoção: “Acordai, Senhor! Por que dormis? Despertai!”. A antítese dramatiza contrários: “as quinas de Portugal” x “as listas de Holanda”, transformando símbolos bélicos em emblemas da fé. A hipérbole (exagero) aparece na evocação do preço pago pelas conquistas: “à custa de tantas vidas e tanto sangue”. No sermão, essas figuras de linguagem não são ornamentais, mas instrumentos de persuasão. Elas constroem um discurso que é também espetáculo. Vieira declara: “Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens; [...] a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão”. Esse intento transforma o púlpito em palco, em que o pregador dialoga com Deus diante da assembleia, criando teatralidade que é também estratégia política.

 

Entre as temáticas destacam-se: a guerra justa: a luta contra os holandeses é apresentada como cruzada espiritual, em defesa da fé católica e não apenas de interesses econômicos; o mito fundador: Portugal aparece como povo eleito, chamado a dilatar a fé. Vieira recorda que as conquistas foram feitas para “amplificar e estender seu império”. Assim, o Brasil é representado como Terra Prometida, incorporada à história providencial; a crítica aos hereges: os protestantes são descritos como “cegos sem fé e mancos sem obras”. Vieira teme que sua vitória cause escândalo entre indígenas e africanos, que poderiam acreditar na heresia como fé verdadeira; a misericórdia divina: após protestar e argumentar, Vieira apela à intercessão da Virgem Maria, Nossa Senhora da Ajuda, como última garantia de socorro.

 

Dessa forma, a dimensão política é inseparável da religiosa. O sacerdote insiste que Portugal não é reino humano, mas reino de Deus. Defender a pátria é defender o Criador. O sermão serve, assim, como propaganda ideológica, justificando a guerra como causa sagrada e mobilizando os ouvintes para o “bom combate”. Ao dramatizar a hipótese da vitória holandesa, o padre multiplica imagens aterradoras: altares derrubados, missas extintas, crianças instruídas no nome de Calvino e Lutero. Essa retórica do horror busca tanto aterrorizar quanto mobilizar, reforçando que a derrota não seria apenas política, mas religiosa.

 

O sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda revela um padre jesuíta em sua máxima potência como pregador, político e artífice da palavra. Nele, a retórica barroca alcança seu ápice: Deus é interpelado, o povo é mobilizado, e a pátria é exaltada. O sermão é, pois, oração e manifesto, súplica e acusação, teologia e ideologia. Ler Padre Vieira hoje é reconhecer como a palavra pode ultrapassar a função religiosa e tornar-se instrumento de ação histórica e literária. Seu sermão não pertence apenas ao século XVII, permanece como monumento da língua portuguesa, testemunho da força da oratória e da capacidade da literatura de mover consciências.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 08/09/2025
Alterado em 16/01/2026
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