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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos
ASSIS, Joaquim Maria Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro, 1881.
 
Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
 
Após publicar romances de teor romântico, ainda que sem a harmonização romântica preconizada por José de Alencar, Joaquim Maria Machado de Assis lança em 1881 o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, iniciando didaticamente o Realismo brasileiro. O inusitado do livro já está em sua dedicatória, “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, seguida da apresentação de um narrador autodiegético (em primeira pessoa) que se mostra como um “defunto autor”, ou seja, um homem morto que do além-túmulo narra a sua vida, enquanto vivo, pois agora se encontra meio sem o que fazer na morte. O novo também está na análise psicológica dos personagens, numa reflexão mais aprofundada da relação do homem de seu tempo com o mundo; no enredo com recuos e avanços temporais, quebrando a tradicional linearidade romântica; no apego a minúcias num processo narrativo lento, priorizando mais a mensagem que propriamente a ação; na metalinguagem e intertextualidade constantes; além da crítica aos costumes burgueses do Segundo Império. Outros aspectos também mereceriam destaque como a escrita irônica e o humor sarcástico, os quais espelharam a sociedade em que Brás Cubas vive, marcada de hipocrisia, interesses, cinismo, egoísmo, características, muitas das quais o protagonista possui.
 
Iniciando o seu relato pela morte, o narrador Brás Cubas se coloca como uma espécie de espectador de sua vida. Narra, portanto, sem o medo de julgamentos terrenos, por não está mais sujeito às leis dos homens, lançando para o leitor um tipo de armadilha narrativa, em que se pretende imparcialidade. Obviamente sua história requererá muito de sua memória num processo discursivo marcado por constantes digressões. O Brás Cubas da história não foi o típico romântico, herói dos folhetins; pelo contrário, sua vida foi marcada por atos condenáveis moralmente.
 
A sua morte foi assistida por pouquíssimas pessoas, deixando já a imagem de um homem que, na hora da morte, contou com reduzido número de “amigos” que pudessem velá-lo e levá-lo até o cemitério; poucos parentes como a irmã Sabina, seu amor e desafeto Virgília e alguns bajuladores. Descreve sua morte num instante em que uma ideia lhe fixou na cabeça, a criação de um remédio para curar hipocondríacos, o Emplasto Brás Cubas. Mas se engana o leitor se pensa ter ele um sentimento altruísta, o seu maior intento era deixar o seu nome marcado no medicamento. Ainda nesses primeiros capítulos, o narrador relata a última visita de Virgília, mulher com quem viveu o prazer do adultério, sem aquele sentimento de amor que tanto os uniu; o delírio em forma de pesadelo com a Mãe Natureza ou Pandora que lhe mostra os males do mundo, entre os quais a esperança.
 
A infância e a juventude foram marcadas por travessuras como o testemunho do beijo adúltero de Dr. Vilaça, homem casado, com Dona Eusébia. A primeira paixão foi com Marcela, uma meretriz que o amou durante “quinze meses e onze contos de réis”. Sua formação em Direito foi marcada por estudos medíocres. Brás torna-se um homem sem a firmeza característica que se espera de um Cubas, sendo o seu pai, Bento, a lhe arranjar uma noiva, Virgília, além de pretender inseri-lo no mundo da política, ansiando que se torne deputado. Antes, porém, do compromisso, Brás visita Dona Eusébia, a qual teve uma filha, fruto daqueles encontros na “moita” com Dr. Vilaça; uma moça de dezessete anos, Eugênia. Brás a corteja e a acha muito bonita, contudo, é coxa de nascença. Uma “Vênus manca” com a qual ele não se veria casado, exteriorizando o seu preconceito. Sua falta de atitude e visível imagem de homem nada promissor, fez com que a ambiciosa Virgília optasse pela mão de Lobo Neves. Ao perceber o filho perdendo prestígio, o pai, Bento Cubas, acaba morrendo de desgosto, legando, assim, a Brás a sua “profissão” de herdeiro. A relação do narrador com sua irmã e cunhado é marcada por jogos de interesse e disputa, sobretudo, por causa da herança do pai; a mãe já havia morrido.
 
Brás dissimuladamente se torna amigo de Lobo Neves, frequentando sua casa. Entretanto, seu interesse maior era em Virgília, iniciando com ela um romance. Para os encontros amorosos, o casal conta com a ajuda de Dona Plácida, uma pobre senhora que fora agregada da família de Virgília. Dona Plácida representa no romance a mulher que nasceu para servir e sofrer. Na casa cuidada por Dona Plácida, Brás e Virgília alimentam o seu amor. Ela fica grávida, deixando no ar a dúvida da paternidade. Brás alimenta em si a certeza de ser ele o pai. Todavia, o feto não se desenvolve. Suspeitas da traição chegaram a Lobo Neves, o qual aceitou ser presidente de uma província no norte, levando sua esposa adúltera consigo e deixando em Brás um misto de saudade e alívio.
 
Nesse ponto, duas cenas muito representativas do livro merecem destaque, a do almocreve e a do vergalho. Na primeira, Brás quase é derrubado por um jumento em que estava montado, sendo socorrido por um almocreve. Como gratidão, pensou em dar três moedas de ouro das cinco que trazia consigo ao homem que lhe salvou da morte. Era excessiva a gratificação, pensou em duas, mas olhando a pobreza do homem achou que uma moeda seria o bastante. Depois de ver o homem beijar o jumento, puxou do bolso um cruzado de prata e lho deu. O almocreve ficou contente, mas Brás pensou que talvez seria melhor ter lhe dado uns vinténs de cobre que ainda restara no bolso. A outra cena mostra como a escravidão é vista como uma relação de circunstância. Através da personagem Prudêncio, Machado deixa sua crítica a essa triste realidade brasileira. Brás encontra um preto vergalhando outro preto, repreendendo-o por ter bebido. Para espanto de Brás, o do vergalho era Prudêncio, seu antigo escravo, do qual fazia “gato-sapato”. Alforriado, agora ele tinha um escravo e o maltratava bem como ele o era. Ainda quanto à escravidão, o cunhado de Brás, Cotrim, fora contrabandista de escravos e mandava com frequência muitos ao calabouço. Ironicamente, assim, Brás diz que “não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”
 
Retomando a vida amorosa do solteirão de quarenta anos, por intercessão da irmã Sabina, cuja relação afetiva com o irmão foi reestabelecida, Brás conhecerá Eulália Damasceno, Nhá-Loló para os íntimos. Três meses de namoro até que a febre amarela leva a moça de dezenove anos ao jazigo. A sina da solteirice estava a rodear Brás Cubas o qual saberá, posteriormente, que Virgília teve um filho legítimo com Lobo Neves.
 
Brás reencontra o amigo de infância, Quincas Borba, em situação de mendicância, tendo este lhe roubado o relógio. Passado algum tempo, uma carta e um novo relógio chega às mãos de Brás. Fora enviada por Quincas, o qual herdou boa quantia de um tio de Barbacena e, agora, sendo um homem rico, passa a frequentar a casa do amigo. É importante frisar que, antes da herança, em um diálogo entre os dois, Brás disse a Quincas que ele precisaria trabalhar, ideia que não lhe agradou. Mas Brás, contudo, também não é homem de trabalho, já que seu sustento é administrado pelos bens herdados do pai. Agora, o amigo que lhe frequenta a casa também é um herdeiro, um homem que foi de mendigo a afortunado; ambos incapazes de ganhar o pão com o suor de seu rosto.
 
Quincas Borba apresenta ao amigo a sua teria filosófica do Humanitismo, uma referência ao contexto das últimas décadas do século XIX marcadas por um florescer cientificista. No cerne dessa teoria, está a visão materialista e egoísta da existência humana. A fixação de Quincas por sua filosofia o levou à loucura e posteriormente à morte.
 
Aos cinquenta anos, Brás teve de lidar com a morte de Dona Plácida, a quem ajudou nos últimos dias de sua vida. Soube também da morte de Lobo Neves, surpreendendo-se com as lágrimas sinceras de Virgília, esposa que o traiu. A sua primeira paixão, Marcela, também morre em situações precárias; além de se reencontrar com Eugênia morando num cortiço mais coxa e mais triste.  
 
O último capítulo do livro, “Das negativas”, sintetiza a vida de Brás Cubas, homem que não alcançou sucesso com seu emplasto, não foi ministro e não conheceu o casamento. Mas, fora o insucesso na vida pública e pessoal, teve boa vida, desconhecendo a pobreza, a deficiência, a loucura como algumas pessoas que o circundaram. Logo, conclui que saiu quite com a vida e com o saldo de “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Essa fatalidade vai ao encontro da visão negativa das relações humanas imperiosa na filosofia de Quincas Borba e que aparece também no delírio com a Mãe Natureza. A miséria humana com sua baixeza, a vida de homem herdeiro não será mais passada adiante, está finda com ele.
 
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, dessa forma, descontrói o happy end típico dos romances românticos. Focando-se num personagem masculino, sua construção psicológica, somada às suas ações, mostra realisticamente comportamentos de um burguês egoísta, através de sua análise crítica. A leitura desse livro não leva ao deleite que até então a literatura brasileira tinha como foco. Traz, porém, uma leitura de formação, de reflexão de comportamentos que espelham a vida. Resta ao leitor a sua última análise de se identificar ou de condenar as personagens que compõem essas memórias póstumas.
Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 26/09/2021
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