Márcio Moraes
"no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia"
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Crônica premiada no 2º Concurso Literário FLIVI/AMLAC (Festa Literária de Vinhedo/ Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências do Estado de São Paulo)
Colocação: 1º lugar
Vinhedo - São Paulo

 
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Eram de borracha. Moles. Tinham um apito na parte inferior abaixo dos pés. Mas não gostava do apito. Gostava era do formato. Gostava era dos personagens. Gostava era das histórias. Minha primeira Turma da Mônica foram bonequinhos de borracha mole que traziam um apito. Não chegava a ser propriamente uma turma. Eram poucos os bonequinhos. E com eles criava meus próprios quadrinhos. Aventuras mais aventureiras. Não eram crianças como quisera o seu surgimento. Eram guerreiros prontos para guerrear. E entravam em ação com outros brinquedos e com outros bonecos. E a turma ia aumentando dentro do menino que criava seus enredos. Sempre com um continue...

O Cebolinha tinha um dedo apontado para cima. E com ele invocava raios que se eletrizavam em seus cabelos. E depois lançava a eletricidade na terra com a outra mão espalmada para baixo. E o chão ficava todo energizado. Era o único que tinha sapatos. Sapatos marrons. E por isso tinha esse poder. Era o preferido. Aqueles que estavam à sua volta ficavam eletrocutados. Todos os outros estavam descalços. Mas uma guerreira podia sugar a força da terra. Era a Mônica que tinha uma das palmas da mão também voltadas para baixo. Conseguia parar toda a energia de Cebolinha. Seus cabelos pareciam ondas. Deles conseguia emitir ondas eletromagnéticas e destruir tudo pela frente. Só não podia com o escudo de Magali. Sua melancia cortada pela metade. Era também uma lâmina cortante. Uma grande guerreira como aquela do videogame. Sua gula a tornava a mais temida inimiga. Pronta estava a devorar quem quer que fosse. E ninguém nunca era vencido. E ninguém nunca era vencedor. Havia sempre um continue...

E a tia chega com um embrulho. Grande. Os olhos do menino crescem. Segura com as duas mãos e rasga o papel. Oh! Ali saindo com os olhos grandes e com os cabelos espetados. Sim! Um boneco maior. Um boneco para se abraçar. Um boneco para se dormir com ele. Um boneco para se levar agarrado pelos cantos e pelos lugares tantos. O Cebolinha estilo pelúcia sem pelo. É claro! Com sua blusinha verde e seu shortinho preto e seu sapatinho marrom. Sorria alegremente para mim. Meu Cebolinha! Meu amigo íntimo tal o Xururuca de Zezé. Com ele confidenciava os segredos. Com ele corríamos juntos pelo quintal de terra. Cuidado para não sujar o boneco! Claro! E já entrava no enredo como um gigante guerreiro. Era o poderoso pai do Cebolinhazinho mole de apito nos pés. Seus poderes eram tantos outros. Invencível. E a história continuava com seu continue...

Mas um dia a gente cresce. E os bonequinhos moles de apito são esquecidos. O boneco de abraçar é deixado sem abraços no guarda-roupa. Esses meus guerreiros já não poderiam me acompanhar. Eu menino-homem deixando o primário. A vida chama a outras brincadeiras. E vão ficando no peito as histórias inventadas. Aventuras sem roteiro. Criações espontâneas que sempre tinham um continue. A regra era brincar até a mãe chamar. Junto com a Mônica e junto com o Cebolinha e junto com a Magali outros bonecos entravam em cena. Alguns eram moles e outros mais duros. Alguns eram pequenos e outros maiores. Os preferidos e os preteridos. O Cebolinha grande! E as brincadeiras foram se trancando no quarto do menino. Se trancando no guarda-roupa. Mais precisamente numa caixa de sapatos. Os pequenos. E quando a insensata razão nos domina vem a decisão impensada. A caixa de sapatos com os brinquedos é doada. Entregada de certa culpa ainda não sentida. Passada a outras mãos menores. E depois de anos somente a imagem vazia de um quarto esquecido sem a caixa de sapatos. É a dor do pause do continue...

O Cebolinha de pelúcia sem pelo permaneceu guardado. É preciso uma recordação palpável da infância. Mas o menino-homem cresce mais. Aí o mundo lhe impõe mais crescimento. É preciso desapegar de tais coisas. Olhe o filho do priminho que acaba de nascer. Um brinquedinho para ele. Você ainda tem aquele boneco guardado. E vem a doação mais dolorida. O desapego de uma vida. E o Cebolinha vai sumindo para nunca mais. Ó Cebolinha de meus sonhos dormidos ao lado na cama! E o filho do priminho se torna um inimigo. Seria ele capaz de continuar o continue?...

Mas chega uma idade em que a nostalgia contagia. E as visitas às lojas de brinquedo se tornam passatempos para lembrar os tempos. E os olhos encontram um chamado. Difícil é encontrar o passado nos brinquedos modernos do presente. Mas ali numa estante um boneco de pelúcia sem pelo me olha. É o Cebolinha! É o mesmo? Não. Com certeza não. Mas é um parente distante que ouviu nossa história. E o homem-menino já casado e pronto à família que se inicia se esquece no mergulho íntimo da infância. E a esposa curiosa percebe aquele instante engraçado. O seu marido um menino ainda continua...

Chega o dia dos namorados. Casados também namoram. Sempre. Eternizados no verbo enamorar. E a esposa chega com um embrulho. Grande. Os olhos do marido crescem. Segura com as duas mãos e rasga o papel. Oh! Ali saindo com os olhos grandes e com os cabelos espetados. Sim! Um boneco maior. Um boneco para se abraçar numa intimidade única. Um boneco para se dormir com ele? Já não mais! Um boneco para se levar agarrado pelos cantos e pelos lugares tantos? Não! É para se deixar guardadinho para sempre. O Cebolinha estilo pelúcia sem pelo. Como aquele que ficou guardado na memória. Aquele que nunca o abandonou ainda que tivesse sido abandonado. Com sua blusinha verde e seu shortinho preto e seu sapatinho marrom. Sorria alegremente para mim. Seu ingrato! Agora a esposa lhe dava a redenção. Meu Cebolinha! Voltava para mim? Não! Ele nunca saiu! Ele sempre ao meu lado do lado de dentro continuava...

E a esposa sorria feliz com a felicidade do marido marmanjão. Só espero que esse boneco não tome meu lugar. Jamais! Por que o lugar dele é outro. É um grande guerreiro poderoso que retorna à sua história. Uma história antiga já muito adormecida. Por enquanto permanece maquinando seus planos. Está esperando a volta de seus inimigos e amigos. A volta de outros guerreiros. O enredo dele é outro. Quem sabe. Quem sabe um dia eu conto esta história. E você dela faça parte. E já na cabeça do marido a certeza do próximo presente da esposa. Adivinhem? E ali guardadinho em lugar especial no closet o Cebolinha. Permanece ali. Talvez ansioso. Ansioso para sair do pause. Está à espera do continue...
Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 03/09/2018
Alterado em 03/09/2018
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