Márcio Moraes
"no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia"
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Abrindo os portões
 
Em frente ao parque, a fila dobra quarteirões. Muitos jovens esperam, ansiosos, o momento de entrar. Os que já estão na boca do caixa compram seus ingressos e vão para outra fila. Os policiais passam algumas vezes para manter a ordem. Uma senhora com olhos de cigana interpela um menino de óculos que está atrás dela. Você não é muito novo para o evento? Essas mães de hoje em dia querem seus filhos cada vez mais livres. 

Lá dentro do parque, o burburinho. Nossa! mal posso esperar para entrar. Muitos com os celulares na mão ligavam para amigos. Era preciso vir rápido, os ingressos estavam acabando. Como de práxis, espertinhos furavam a fila. Com licença, ele estava guardando o meu lugar. E à medida que a fila andava, sentiam-se mais próximos do êxtase que os esperava. É preciso deixar claro que os portões ainda não tinham sido abertos. De fato, havia já muita gente dentro do parque, mas eram todos organizadores do evento. Tudo deveria estar nos conformes para receber o grande público. Com os ingressos na mão, agora era enfrentar outra fila, a da entrada. 

Finalmente, os portões foram abertos. Um empurra-empurra. Garotas começaram a gritar. Queriam entrar primeiro. Não havia área vip. Todos poderiam ficar em qual seção preferissem. O parque começou a encher. Todos sorridentes e felizes. Os organizadores em suas barraquinhas ofereciam seus produtos com muita simpatia. Mas todos estavam lá para verem o grande astro, ou melhor, os astros. Ah, momento tão singular em minha vida. Tantos talentos juntos e tão perto de mim. 

As vozes dentro do parque começaram a ficar mais aclamadas. Os alto-falantes anunciaram o momento tão desejado. Iria começar. As grandes estrelas do evento seriam apresentadas. Subiram-se cortinas coloridas e eles, então, ficaram à mostra. Houve um silêncio contemplativo por minutos. Todos boquiabertos. Inacreditável, como eram belos. O público foi se aproximando aos poucos.

Pela primeira vez na cidade, as pessoas puderam apreciar um show tão singular, no qual elas eram participantes. Eles ficaram lá, prontos, cada qual em sua seção, esperando as mãos de seus fãs ou de curiosos. O menino de óculos viu quem ele tanto procurava, bem na ala sertaneja. A senhora com olhos de cigana contemplou sua sina ao lado das memórias. E todos no parque se dirigiram até o seu preferido. 

O evento durou sete dias. E durante todos esses dias, o parque ficou lotado. Todos sentiram prazer em enfrentar as filas, pagarem o preço justo para ficarem frente a frente com as maiores celebridades do Brasil. Os portões foram abertos. E as mães mandaram seus filhos, até os mais pequenos. A senhora cigana entendeu, mas a sua dúvida ainda continuou.     O menino de óculos chorou ao ver que sua vida parecia tanto com aquela que ele estava nas mãos. 

Passados os sete dias, restaram apenas a saudade e a lembrança. Depois desse evento, a cidade se transformou. As pessoas começaram a viver com maior humanidade. As crianças só queriam a escola. Os rapazes cortejavam as moças com doses românticas. Os governantes eram outras pessoas. Vidas. Reflexões. 

Porém, um garotinho estava triste. Sua mãe, então, lhe perguntou por que estava assim. Ah, mamãe, queria tanto que eles voltassem. Mas, meu filho, você ainda não sabe ler. Mamãe, eu vi quando as cortinas coloridas se levantaram e aquelas estantes brilharam diante de mim. Todas as obras clássicas da literatura brasileira diante de mim. Eu só precisei estar lá, mamãe, eu só precisei imaginar...

In: Ler-ser(r)2016, p. 110.
Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 08/04/2018
Alterado em 08/04/2018
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